quarta-feira, 4 de maio de 2011

Vai procurar a sua turma!!!!




Camila doida adorava o apelido, fazia jus a ele, seja nos porres homéricos de vodca com energético ou madrugadas perdidas na fumaça do Bali. As olheiras matutinas não representavam bem seus vinte e um, um objetivo que cultivava na maquiagem pesada. A faculdade era um esporte que não praticava, quase como a ergométrica que servia de cabide, a mãe nem desconfiava pagando religiosamente as mensalidades que serviam apenas para a doida fazer carteirinha e ter meia entrada nos eventos. De festa entendia, do funk ao trance bailava pela nights procurando seu estilo. Personalidade pra ela era bilhete de biscoito da sorte que se guarda pra ler no futuro. Camila era do momento, como a música. Beijava menino escondido pra sentir tesão, beijava menina na muvuca pra estar na moda. Sem menor saco pra se entender, se descobrir, isso o tempo faria com pílulas e psiquiatras. No momento tava bom assim, andrógina, intrépida e chocante. Chamando a natureza para dançar no compasso do seu brilho fosco, sem ligar pro preço que isso ia custar.

terça-feira, 19 de abril de 2011

O último tubo.




Seu Manel passou a vida no mar. Seu ofício pescador, mas o coroa curtia um surf. Pioneiro do esporte em Niterói divertia-se passeando pelas marolas de Itapuca na ressaca. O aposentado era um romântico, testemunhou a decadência do seu universo azul com lagrimas nos olhos. Depois da poluição veio à idade que não o deixava mais surfar.
Um belo domingo o veterano saboreava a memoria respirando a maresia que vinha da Bahia de Guanabara na praça do seu bairro quando teve uma grande surpresa. A estação de tratamento de esgoto se rompeu despejando seis milhões de litros de esgoto na sua direção. Estava no fim de uma partida de buraco, quando teve que relembrar os velhos tempos, improvisou um pedaço de madeira e voltou para casa surfando a enorme tsunami de merda. A coisa ficou preta literalmente, porem depois de alguns banhos seu Manel não deixou de sentir de volta a adrenalina de ter protagonizado seu último tubo.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Muito romântico

Se eu fosse presidente do Brasil mandava matar todos esses indivíduos que ficam vagando de bar em bar oferecendo aquela florzinha para o casal. Acho que é a típica situação em que todo mundo se fode, se você nega não é romântico, se compra é cafona e a coitada da mulher constrangida não sabe onde enfiar a flor nem a cara se for presenteada. O pior é que isso acontece no momento mais covarde possível, não dá tempo de correr, é dramático quando você percebe a presença do inimigo se aproximando e fazendo as primeiras vitimas, sempre em posição estratégica, de modo que ir ao banheiro parece fuga, plano obvio que acaba frustrado. Vendedor de flor de boteco é igual à abelha no caldo de cana, afasta um e surgem vários, por todos os lados, todas as cores, rosas, amarílis, antúrios. Um jardim de pernas movido pelo ódio que sua rejeição criou com uma missão bem mais pessoal, broxar de uma vez por todas seu encontro.

terça-feira, 1 de março de 2011

A lira do delírio


Karina seguiu intrépida a multidão contente. O centro curtia a euforia da festa pagã. Gelo de escama, cerveja quente e até um chapéu panamá roubado na muvuca. Assim saiu o escravos, único bloco capaz de fazer o executivo trocar o terno pela roupa de piranha e cair na gandaia pela rio branco tomando chuva de ar condicionado. O alívio estava contido na caipirinha, tanta gente, tantas possibilidades descendo com Karina. O tumulto carrega seu corpo, mas ela não pertence, não repara na marchinha, seu silêncio é impenetrável, sua fantasia de odalisca é obscena, atrai olhares porém as lagrimas nos seus olhos espantam na mesma velocidade.
Não poderia existir vilã pior, uma entidade mais ferina que bate bola ensandecido. O carnaval fechou as portas para Karina que indiferente sumiu na praça quinze a bordo da velha barca deslizando pela Bahia de Guanabara. Não deixou saudade, nem mesmo curiosidade. Karina triste cometeu um erro fatal. E não foi culpa da fantasia, nem da ousadia, vacilou feio por não saber em que parte do caminho esqueceu sua alegria.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O pior amigo do homem


O pequinês morde???

Quanto tempo não adentra uma casa de subúrbio e se depara com essa questão?
A televisão vive lamentando a extinção dos orangotangos, mas pouca gente se preocupou com a extinção da antipática raça de cãezinhos nervosos. Latido estridente, vendido a preço de banana, não existia casa que na possuía seu pequinês no quintal. Virou mania, quase uma praga temperamental que saboreava vez por outra a batata da perna de um visitante. Apesar do tamanho os dentinhos vampirescos que insistiam fora da boca era a forma de impor respeito.
Não sei qual mistura genética originou esse bibelô vivo das copas residenciais, sei que não deu certo. O infeliz convivia com uma doença assustadora que fazia cair um olho depois de certa idade. Então o exótico pulguento que já não gozava de aparência vistosa se transformava em um pedaço de capeta que assustava até revolver. Resumindo, não sei por qual motivo aconteceu o fim da espécie, só sei que o pequinês sumiu do mapa. O que restou para os saudosos foi buscar consolo nas réplicas de cerâmica de gosto duvidoso, vendidas nas lojas de um e noventa e nove.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mea culpa



Quando cursei o primeiro ano do segundo grau conheci Horácio. Não era o dinossauro verdinho dos gibis de Maurício de Souza, sim uma menina da classe que possuía cabeça oval e olhar carente. No meu imaginário nocivo de moleque, criei o personagem vivo. Apesar do ódio da vítima ganhei a aceitação da turma que sentava na parte de traz. Virei um ídolo pop escolar, fumava cigarro nos corredores, passava as aulas falando gracinha. Na hora da prova o zero foi quem mais sorriu para mim. Fim das contas no meio do ano à garota deixou o colégio para fugir do apelido e eu fui transferido para um mais fraco sem possibilidade de passar de ano.
Parando para pensar, meu ponto alto daquele ano letivo foi um apelido cruel que me fez popular, vejo quanto fui idiota e percebo que toda essa conscientização de hoje sobre o bullying é fundamental. O universo escolar pode ser agressivo, lembra um reino animal onde a fera acha melhor ferir que ser ferida, e no fim todo mundo acaba ferido. No momento da vida que esta moldando seu caráter pode ser difícil perceber o peso de uma brincadeira, e tem gente que cresce sem noção disso. Desde cedo é necessário cuidado no humor, pois a piada pode ser dona de todas as gargalhadas do momento, mas pode também causar uma ferida profunda no ego de alguém.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Muito Feliz kkk


Glorinha acendeu a luz do quarto, sem vontade de levantar. Atordoada, com ressaca de um amor perdido, paixão ilusória, que anunciou para os sete ventos, idealizou, sonhou e escreveu. Glorinha sempre foi sorriso aberto de retrato, glamour modesto das redes sociais, tentativa desesperada de ser notada no mundinho ilusório, na revista caras dos pobres. O álbum do Orkut não exibe fotos do seu desespero, onde o gelo do ar condicionado não se compara com o polo norte da sua alma. Dominada pelo nada, abre o note book e examina sua criatura, fantasma risonho que se alimenta de analise e frontal. Exclui rapidamente o álbum cafona onde divulgou sua aposta fracassada, o príncipe encantou seu universo por dois meses o sapo vai durar a eternidade. Jura pra si mesmo que só precisa do ódio e do tempo, mas no mundo virtual, onde tem uma reputação a zelar coloca na frase da chamada em letras garrafais, Muiiiiiiiiiiito Feliiiiiiiiiiiz kkkk.