quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A parada!!!!!!!!!


Dia de praia, sol derretendo a ideia, um mundo de gente confraternizando com o astro rei a sorte de ser carioca. O único motivo de azar no paraíso era a nervosa ressaca. Poucos se atreviam a entrar na água, quem ousava virava motivo de chacota devido a algumas cambalhotas aquáticas que divertia a galera na areia. Quando o caixote era feminino normalmente o biquíni ia parar na cabeça deixando a mostra partes íntimas, mas quando o assunto era macho, a diversão ficava por conta da dificuldade do desgraçado em sair da água.
Ronald não era sujeito de ficar tostando na areia por medo da natureza. Medalha de lata em natação não ia deixar de dar suas braçadas, apertou o cordão da sunga e resolveu encarar. Furou a primeira onda, a segunda, na terceira sem fôlego foi engolido pela serie. Só alegria para os espectadores, uma soca atrás da outra, até o mar resolver cuspir na areia.
-sai da água! Gritava os amigos vendo o intrépido insistindo em explorar a espuma, correndo o risco de ser sugado novamente pelo oceano furioso.
-perdi a parada! Gritava tentando tapar o rosto.
-quer morrer! Veio de encontro o salva vidas tentando tira-lo e quase se afogou de susto.
O desespero de Ronald em procurar o que perdeu era maior que um prejuízo material, o que sumia nas profundezas de iemanjá era nada menos que seu segredo, até então guardado a sete chaves no meio da rapaziada, mais valioso que um cordão ou dinheiro, deixava na água nada menos que seu olho de vidro, cuja ausência lhe deixou por um bom tempo usando tapa olho e ganhou o apelido de pirata do asfalto.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sonho de consumo.


Frigideira odiava o emprego na loja de sapatos, diariamente subindo e descendo do estoque, aguentando mau humor. O sacrifício trouxe o orgulho de ser o primeiro motorizado da rapaziada. Apresentar o carango para rapaziada ia lhe transformar em um rei, já que em tempos de vacas magras, neguinho não tinha o dinheiro nem da bicicleta.
O dito era um Fiat 147, amarelo caganeira. Nos planos da praia de domingo esnobaria Samuca, rival que lhe batizou com o apelido exótico que causava risos no público feminino.
Célere estacionou o frigideira móvel na praça lotada. A galera bateu palma eufórica. Seu ponto alto.
-que isso! Despeitado em achar um defeito, Samuca cutucou uma falha na pintura e surgiu a primeira manchete.
Para constrangimento geral, o antigo dono omitiu um fato importante. O veículo tinha sido protagonista de uma capotagem cinematográfica, o lanterneiro metido a artista utilizou muita massa e jornal para substituir grande parte da lataria. Frigideira dirigia sob palavras.
A diversão ficou por conta de descascar a pintura em busca de informação. Desesperado, restou a Frigideira tentar evitar que desmanchassem seu sonho de consumo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Promessa de mão de vaca.




Ano novo, vida nova. Zilda decidiu, deixaria de ser sovina colocaria o melhor vestido e ofertaria rosas vermelhas para iemanjá pedindo marido.


O fim de ano no manicômio trazia esperança nos enfeites de natal e pacotes de cigarro de presente. Fartura, não faltava cigarro na boca de maluco. Só que Clóvis queria mais que ficar encolhido pelos cantos tomando remédio e soltando fumaça, queria a liberdade.


Na floricultura Zilda teve uma recaída, se revoltou com o preço do buque e improvisou furtando as flores amarelas de um arranjo na portaria do seu prédio.


A noite da virada foi a data escolhida por Clóvis para fuga. Meia dúzia de funcionários lamentando plantão no feriado, sossega leão na idéia dos doidos. Nove da noite, pacientes recolhidos no pavilhão, ninguém deu falta de Clóvis na contagem. Pulou o muro e deu seu grito de independência.


Em uma praia lotada por multidão alcoolizada, o fugitivo ria nervoso para todos os lados quando percebeu o olhar receptivo da solitária Zilda de volta do mar onde depositara sua medíocre oferenda. Sem se fazer de rogado o Don Juan do hospício iniciou um xaveco que começou numa conversa sem nexo e culminou num longo beijo quando deu meia-noite. Bela entrada de ano, show pirotécnico no ar, bandinha animando o começo da madrugada.
Ao clarear o dia, o casal namorava deitados na areia. Zilda agradecia o milagre naquele cenário romântico depois de décadas encalhada. Clóvis vibrava com o mundo de prazeres proibidos quando estragando a atmosfera do grande encontro o enfermeiro Genival surgiu na frente dos pombinhos. O paciente tentou escapar e foi travado pelo enfermeiro Abílio na retaguarda. Zilda perplexa assistiu os brutamontes colocar a camisa de força no amado. No triste caminho de volta ao apartamento, lamentou amargamente a economia nas rosas vermelhas de iemanjá.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Passeio na praia


Viajo longe namorando o mar. Paquero as colegiais matando aula no calçadão, malicia, beleza suave. Percebo que alegria tem muitos donos, angustia um só motivo. Perto do mar não preciso ser nada, leve como o vento, presente e invisível como a maresia. O cheiro de sal, o agressivo toque da arrebentação, o óbito do sol no horizonte. Horas parecem minutos, onde não tenho cor e nem juízo. Fico um pouco ausente da realidade, do sofrimento na hora de sair da cama, da busca de um propósito, temendo os olhares, as questões. Ressaca da alma, sem forma e sem jeito apenas desespero.
Aguardando iluminar a orla, um sorriso me surpreende, traz uma alegria sem dor, uma certeza na vontade. Impossível não me envolver, era o momento, o desafio.
-como se chama? Perguntou a dona de olhos azuis que traziam pra noite o encanto do mar. Nesse momento poderia ter qualquer nome, ser qualquer coisa, tudo ou nada.
-meu nome é Vera! Respondi com a sinceridade da certidão de nascimento.
Sem uma palavra ele pegou minha mão, me senti pronta, protegida da matéria ao espírito, acolhida pela certeza. Deixei o medo no caminho e fomos de encontro às diferenças.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um dia de morto


Barulho seco de freio, som estrondoso de ferro com ferro. Nas ruas mal sinalizadas do bairro uma porradinha de carro fazia parte do cotidiano. Nesse caso um caminhão se beijou com um ônibus vazio que seguia para garagem. Para decepção do povo, não houve feridos, afinal de contas desastre é o teatro do pobre. Observando a frustração Vicente teve uma idéia mórbida, roubou um lençol do varal, espalhou ketchup pelo corpo, deitou no asfalto improvisando o defunto do acidente. Os amigos cúmplices achavam que o gaiato seria rapidamente desmascarado, mas o manequim de presunto estava tão convicto da sacanagem que permaneceu imóvel colocando em dúvida até os comparsas que encanaram que ele parara mesmo de respirar. Os transeuntes aglomeravam e um ou outro levantava o lençol orquestrando o coro de suspiros.
-tão jovem! Lamentou uma senhora gordinha, deixando escapar uma lagrima.
Já escurecia e nem a assistência nem a polícia chegavam. Só uma romaria de curiosos. A brincadeira ia tomando um tom caótico, um pastor inventou um sermão, uma mãe tapou o rosto da criança e um bêbado soltou um palavrão para em seguida ganhar uma tapa de um mulato forte, iniciando a pancadaria que faltava ao espetáculo. Vicente nem se movia, era tão mentiroso que perigava ele mesmo estar se acreditando morto. O acaso veio de jornal de baixo do braço, tímido seu Nestor adentrou o tumulto e perceber que o cadáver era o próprio filho. Era um homem simples, mas de bobo não tinha nada, percebendo que se tratava apenas de mais uma travessura de Vicente, soltou o sonoro assovio característico de quando queria colocar seu moleque na linha.
-fiuuuuuuuuuuu!!!!!! Foi o suficiente para o falecido pular e sair voando entre a multidão no caminho de casa. Um Deus nos acuda, gente correndo para todo lado, criança chorando e idoso passando mal, a polícia chegou dando tiro e a assistência acudindo. O dono do milagre foi pra casa jantar e colocar de castigo o maior artista que a cidade já conheceu.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma choldra ignóbil.





É época de sorriso roto em adesivo de carro. Não é necessário ser bonito, apenas a arte de rir sem vontade, a técnica de vender bondade com prazo de validade. Dias fatídicos que o horário nobre da televisão é gratuito, mas custa caro pra gente que troca à novela pela divina comédia humana. No picadeiro o mágico apresenta no presente a carta que vai tirar da manga no futuro. Política se alimenta do amanhã, principalmente por saber que memória é luxo de enciclopédia.
O monstro jurássico que promete acabar com a miséria é o alimento de campanha. Um jingle insuportável fica na cabeça depois de seguidas voltas do carro de som. O pedágio do traficante vale um tour pelo morro, conceito com a rapaziada, a ratazana foge assustada pelo esgoto a céu aberto que promete fechar, solta os fogos que se confundem com balas e banca o churrasco de gato. Depois contrata meia dúzia para balançar bandeira na rua, vestindo as cores da sua prepotência na camiseta apertada. Só alegria, beijo seco na criança remelenta, dentadura pro idoso e cachaça para o bebum. Na noite em casa pensa em números, toma sal de frutas pra curar a feijoada indigesta que foi obrigado a provar. No fim das contas vitória do ego, os espólios da batalha sobram para poucos, para muitos, chá de sumiço, esbarrão de segurança. A bondade vira arrogância, uma casa de praia no condomínio fechado. E um mais novo estranho familiar estréia trajando Armani e vomitando demagogia para platéia sonolenta em algum canal a cabo. Saboreando a herança dos devassos na capital que inventaram no coração do cerrado, longe da ralé, das enchentes esperando quatro aninhos pra sorrir de novo

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Troca ingrata


No começo dos anos oitenta, pouco se conhecia de recicláveis, não existia garrafa pet, latinha pouco popular (duras e sem valor de revenda), tudo funcionava na base do vidro, o famoso casco.
O casco era vedete na economia de secos e molhados, e de carona nessa febre surgiam no mercado informal alternativas de se lucrar com isso. Guardo na memória uma dessas aventuras que infernizava os lares suburbanos nos fins de semana, o famoso picolé ou pinto por garrafa.
Na carroceria de um velho caminhão, um gaiato de pouca credibilidade urrava no megafone “é picolé ou pinto por garrafa”, a polemica frase atiçava a molecada que assaltava o engradado no quintal de casa para trocar pelo interessante pintinho rosa, um milagre ordinário da ciência clandestina. O picolé derretia encalhado enquanto os pintinhos partiam sufocados para o novo lar. Alguns dias piando, cagando e gastando luz forte na gaiola improvisada perdia metade do charme rosa e se tornava um frango desbotado. Novo demais para ir pra panela, com tamanho suficiente para incomodar com sua catinga a pequena ave deixava o clima tenso. O ultimo suspiro de paciência se esgotava no dramático almoço de domingo ausente da coca litro que o português da padaria se recusava em vender sem trocar o casco. Era o momento de alguém partir e o penoso ia parar no abatedouro do bairro. Meses depois a epopéia terminava com o retorno do pintinho ao antigo lar, dessa vez por cima, cima da mesa. Assado, cozido ou ao molho pardo o indesejado hospede de antes virava novamente o protagonista do espetáculo.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

Encrenca sem pedigree!




Seu Julinho presenteou Carlinho com um belo exemplar de vira-lata. O sobrinho avoado não inspirava confiança de que cuidaria com atenção do cãozinho, mas o danado era tão jeitoso, verme fugado, possuía ares de labrador.
No meio da criançada curtindo o final de férias o peludo virou desculpa para sair em disparada, sumir pelas ruas próximas brincando de polícia e ladrão. O tio zeloso ficou pela praça dando em cima de uma jovem mãe desquitada de um dos meninos que estava na brincadeira. Conversa vai, conversa vem surge do nada o cachorro sozinho, evidentemente abandonado por Carlinho no meio da diversão.
-criança não é mole, já deixou o bichinho de lado!
Lamentou seu Julinho carinhosamente pegando o filhote no colo como se faz com um poodle de madame.
Alguns minutos de conversa depois surgiram no horizonte a molecada na maior algazarra, junto a carlinho o bicho de estimação que ganhara de presente. Constrangido diante da paquera, seu Julinho não sabia o que fazer com vira-lata confundido, que repleto de pulgas rosnava inquieto nos seus braços.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Que bela amizade!!!


Edil Pacheco Coroa!?!?
Lembro das gargalhadas na sala de aula quando o professor pronunciava esse nome na chamada. O dono não aprovava, também não podia brigar com todo mundo apesar da fama de mau. O colégio noturno reunia os piores elementos, desde o cara que cagava na lixeira da classe até o terrorista que explodia bebedouros. Uma mistura de hospício e puteiro, ultima parada antes do abandono escolar total. A figura de nome engraçado aprontava com Deus e o mundo, se fingia de manco para ter gratuidade no ônibus, roubou o caixa da cantina e foi aprovado sem provas finais quando soube que o diretor afeminado tinha um fraco por alunos carinhosos. Criei certa simpatia pelo doidão que me chamava de maluco, apesar de todo cuidado, naquele ninho de rato um descuido e ia embora sua carteira.
Terminei o supletivo e perdi a peça rara de vista, com planos de fazer direito penetrei junto com a turma de um amigo que cursava numa visita a delegacia, sendo mais claro, a uma carceragem.
Fomos atenciosamente alertados a não dar assunto aos presos e formando grupos de dez, os estudantes foram adentrando o corredor fúnebre onde ficavam as celas. O povo saia chocado com o pedaço de inferno. Na minha vez cheguei a hesitar, mas tomei fôlego e fui. Era um depósito de gente, mal iluminado e fétido onde feras mal-encaradas faziam as grades parecer volúveis. Já me sentia aliviado por estar perto da saída quando ouvi aquela voz familiar.
-tá fazendo o que aí maluco???
Era simplesmente Edil Pacheco Coroa, dividindo um cubículo de oito por oito com umas vinte cabeças. Fingi que não era comigo e sai de fininho. Não imagino que raio de confusão aprontou para estar ali, mas sabia que seu jeitinho brasileiro de resolver as coisas não poderia acabar bem. Fora da gaiola humana, constrangido expliquei para os universitários minha velha amizade e desisti de direito.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

The Show Must Go On


Quando o barulho abraça a madrugada surgem os verdadeiros donos da noite. Músicos que vão do rum barato ao doze anos matando a sede no sereno. Distantes do glamour das gravadoras, nem por isso estrelas menores dessa enorme constelação, pois se valem da mesma força avassaladora de sedução. Arte que invade tanto o boteco remoto onde se apresenta para dois bêbados como na boate lotada onde são consagrados por alguns instantes. Bolso vazio, corações inflados, arrepiados com a reação do público que canta junto e viaja na melodia. Brigam pela classe contra a casa de show que cega pelo capitalismo remunera indevidamente seu talento, porem reconhece nela uma vitrine necessária na exposição. Intrépidos trocam sem barganha sua saúde pela alegria daqueles que precisam de um pouco de fantasia. Despertam paixões, colecionam amores, na eterna busca do melhor, do ao vivo, tão perto do povo que sentem o hálito da euforia.
Quando a noite acaba, os ciganos involuntários do ofício desmontam o palco, toneladas de caixas e fios, viola no saco. Hora de encarar a rodoviária deserta, os óculos escuros escondem olheiras profundas e em alguma pousada da vida adormecem ocultos, recompõem energias para despertar ao primeiro sinal de crepúsculo e começar tudo de novo, afinal o show tem de continuar.


Em homenagem a algumas estrelas desta constelação como Leo Barreto, Marcão Nunes e André Amon

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Cúmplice de liberdade



Liana iniciou uma viajem pela lua. Cansou-se de manter o juízo, elefante branco sem utilidade. Sabe que sua sorte não estaria nas estrelas, mas na terra anda tudo chatinho mesmo, pequenos suspiros condicionais, sem gosto como comida de hospital. Agonia das mesmas caras, mesmas contas difíceis de pagar, não lembra em qual gaveta esqueceu o sorriso.
Seu cotidiano é arrumar a casa, varrer o caos pra debaixo do tapete. Chora as mágoas da incerteza escrevendo poesia com seu cúmplice de banho de mar, de liberdade. Um anti-herói familiar que matava um leão por dia para deixar aberta a porta da gaiola e fazer Liana voar. Encolhida do frio no edredom da segurança, esqueceu como se voa, lamenta como é perecível uma tentativa frustrada de felicidade. Na lua observa que o circo contínua armado, peça vazia de atriz cansada, sem condição de esconder na fantasia o desespero transbordante. Resolve perder mais um tempinho na lua, quem sabe não tropeça nas asas perdidas e voa de novo, voa sem volta, louca, lúcida, viva de novo.

terça-feira, 20 de julho de 2010

O saci albino


Cara de bezerro era um espírito da floresta, criatura da mitologia grega meio homem meio cabrito. Fazia parte do meu imaginário como um duende. A criançada morria de medo da figura que habitava o bosque. Perverso com a natureza, maltratando micos, espantando pássaros. Nos fins de semana o horto botânico lotava, adultos fazendo cooper, gurizada de bicicleta nova, vendedor de pipoca, mendigo cagando no mato e Cara de bezerro puto com todo mundo no parque que julgava seu. Odiava gente, sua feiúra ficava mais evidente na presença dos humanos. Chocado testemunhei um dia ele afogar um filhote de gato, afogava e ria, gelei imaginando cara de bezerro torcendo meu pescoço enquanto arreganhava aqueles caquinhos amarelos que ele achava ser dentes. Troquei o horto pelo shopping, adolescente parei de ter medo de monstro. Longe daquele universo nunca mais tinha ouvido falar do sujeito, quando em uma calorenta tarde de sábado me deparei com o saci albino tomando cerveja em um boteco da alameda. Parecia ter medo de todo mundo, tão frágil, tão humano. Realmente possuía uma evidente síndrome que lhe causava alguma demência e lhe dava aquele aspecto tão horrendo. Eu de barba na cara e não me achando certo da idéia a ponto de julgar alguém, entendi que a fantasia de criança é feita de heróis e demônios e quando adulto se percebe que a linha que separa o mocinho do bandido é tênue.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Contra ao vento


Nas manhas úmidas de sereno, surge o dono da alameda. Cúmplice calado da fumaça negra dos ônibus. Faça chuva ou faça sol o senhor supremo da sarjeta cambaleia pelo trânsito. Abstrato, fantasiado de sujeira, carrega no corpo quinquilharias que compõem um figurino confuso, cheio de cores e odores. Ninguém sabe o seu nome, sua história, no semblante fechado esconde uma melancolia nos olhos úmidos, tapado de barba, repleto de caracas. Seu banheiro é um pneu que usa para deixar no canal os seus dejetos, um espantalho urbano, causando repulsa, deixando no rastro pessoas tapando as narinas, tomando distancia. Abandonado da sanidade deixou o CPF no passado virou uma ratazana gigante. Vagando bobo, calado, dizem a boca pequena que é mudo, certo é que foge a regra dos lunáticos com algazarra peculiar. Sem paradeiro certo, dorme uma hora em viaduto, outra em marquise, imprevisível, camuflado da prefeitura que recolhe o povo da rua.
Não bebe álcool, não usa droga, perambula a esmo sem pedir comida, dinheiro, gosta de ser independente, dono daquilo que as pessoas perdem, deixam pelo caminho, o resto compõe uma fantasia trágica, ofendendo os caretas que não sabem que a arte é um moleque temperamental, pode estar no luxuoso museu da Europa, pode estar no miserável que trajando entulho, livre e intrépido é conhecido como homem lixo.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Barra pesada.




Quando guri achava que era caçador. Acordava cedo, gritava meu fiel escudeiro Jaci (um mulatinho metido a entender de passarinho), e munidos de espingarda de chumbo desbravávamos a pedreira em busca de passarinho. Minha mira era péssima, Jaci era arisco na pontaria, voltava pra casa cheio de rolinha no saco. Uma dúzia de ovos depois estava pronta a farofa.
Cresci, me mudei e virei amante da natureza. Nunca mais tinha ouvido falar do antigo parceiro, lembrava apenas do jeito alegre, seu riso nervoso, tirando fino dos ônibus na bicicleta roubada.
Dez anos depois o antigo bairro tava barra pesada. Os jornais culpavam um sangue frio no comando da milícia na região. Cai pra traz quando reconheci na primeira página meu amigo de caça da infância. Jaci continuou o predador de sempre, só que agora caçava gente. Vaidoso se dizia líder comunitário de um povo miserável e oprimido, mas na sua truculência era apenas um ditador frio. Em uma das raras visitas que fiz ao bairro depois da descoberta, o acaso caprichoso trouxe o susto de fazer bater de frente. Ganhei um sorriso, recebi um abraço apertado no qual pude sentir o volume da pistola na cintura. Relembramos sem jeito nossa infância, agonia estranha de estar perto do perigo. Quase senti pena da fera. Nas atrocidades movidas pelo ego assassino, o monstro tinha perdido o direito de ser gente, namorava a morte a cada minuto, com o mesmo riso nervoso. Tive vontade de dizer que não precisa ser assim, que sempre tem uma saída, recuei, ele já estava mais íntimo da violência do que meu. Percebi que por mais distante que este mundo pareça estar de nós, encontramos nele tão somente o que encontramos no nosso dia a dia.

domingo, 27 de junho de 2010

Pela Janela


Da janela Lourdes via o mundo passando. Todo tipo de mundo passava pela sua janela. Paquerando todos, dispensando sorriso torto para os transeuntes. O ponto forte não era beleza, seu charme medíocre era invisível aos exigentes. Lourdes era assim, igual a todo mundo, cara de gente que enfeita com o vulto a multidão. Por isso se pintava, coloria sua insignificância com maquiagem barata, palhaça atraente para os fracos de idéia. Namorando de profissão ganhou um bofetão do pai quando pegou barriga, o rebento natimorto ficou pelo caminho, Lourdes foi pra vida de vez, deixando sua cidadezinha (pequena no tamanho, grande na intolerância). O caminhoneiro trocou a carona por carinho. Foi dando o que tinha pelo caminho. De janela em janela, espartilho, cinta liga, escondendo a melancolia na bebida. Convidando os solitários a invadir sua rotina, matando a fome de uns, fazendo a fantasia de outros, deixou o sonho do noivo ensebado pra traz, ia sobrevivendo enquanto tivesse uma janela para enfeitar.

sábado, 19 de junho de 2010

Passageiros.


Nem todo mundo nasceu pra ser pai, ser rico, casar em igreja, almoço de domingo. Tem uns caras que são assim, largados no mundo. Olhando pelo retrovisor a vida que os caretas planejam. Uns vira-latas com vida de lorde, nas melhores festas, viagens, restaurantes, redescobrindo o Brasil moderno. Sem dinheiro no bolso usando o mecanismo do charme para abrir portas.
Levam a vida na arte, guardam os compromissos na gaveta, na magia de enganar o tempo. Garotos perdidos na terra do nunca da boêmia.
Brincando de existir, enquanto parentes batizam filhos, pagam imposto, multas atrasadas. A vida acontece no barato de quarenta anos em dez. Dormindo pouco, tomando banho de sereno. Gozar sem dinheiro no banco, concurso público e certeza no fim do mês. Fugindo sempre do marasmo.

O sorriso nem sempre sincero, algumas vezes chorando na chuva para esconder as lagrimas, mas tristeza é gripe que se cura em uma noite.
No palco da vida também tem espaço para os passageiros, figurantes que não deixam sobrenome, não guardam lugar em cinema na tarde de domingo. Essa malta de namorados do acaso, deixando um rastro aventureiro sem criar raízes.

Dedicado a Rafael, Daniel, Leo, Tony e eu.

terça-feira, 8 de junho de 2010

O andarilho


Conheci um jovem nas minhas andanças, um gênio que lia o mundo e era capaz de tudo. A pessoa mais viva que poderia existir. Sem medo de chuva, batia palmas para o sol, disposto a devorar o mundo sem pressa, sem cadeira de balanço. Acreditava que oportunidade se constrói, era um criador, conhecia a fonte e deixava transbordar sabedoria. Sempre com humor, contagiante fazendo o seu redor ficar iluminado. Sua energia fazia ganhar o dia, palhaço nobre do espetáculo terrestre. Vivia sorrindo namorando o universo. Soberano da alvorada, sábio oculto no meio da intolerância, desarmava os desesperados com caridade nas caminhadas pela cidade, em passos curtos que traziam há destreza do caminho certo.
O tempo já não importunava, tinha sido enganado por esse moleque de noventa e poucos anos. Gozando cada minuto com brilho nos olhos azuis. Não sei se ainda vive, mas na terra ou nas estrelas será eterno na memória daqueles ouviram suas palavras.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Trago pessoa amada


Era só esquecer, mas às vezes a gente luta pra continuar sofrendo, porque tem momentos que isso é o mais interessante que temos. Laurinho andava bolado, fulo da vida pelo fim de um falso amor que sua ingenuidade não tinha lhe deixado perceber. Amaldiçoava a cretina que jogara pelo ralo sua paixão, mas só queria a dita cuja de volta. No desespero do momento, sem dormir, sem comer, deixou a razão na gaveta e focou sua atenção em um panfleto colado no poste em que dizia (trago a pessoa amada em três dias ou seu dinheiro de volta). Vinha agonizando há semana se tivesse que matar uma galinha preta para abrandar o sofrimento não pensaria duas vezes.
Chegou ao endereço e teve a deprimente conclusão que para atingir o paraíso tem muito inferno pelo caminho, nesse caso uma vilazinha de quinta categoria. Depois de passar por lavadeiras curiosas, crianças remelentas e idosos descamisados chegou na casa do milagroso. O velhote trajava um branco encardido e guias rubro negras no pescoço, o seu quartinho ainda era mais fedido que a vila toda por conta de uma mistureba de gato, cachorro e passarinho. Com um charuto barato dançando na boca banguela rezou Laurinho que deixou cem reais para o serviço. Foi pra casa aguardar o retorno da danada em setenta e duas horas. No primeiro dia nada, no segundo nem sinal, o terceiro prevaleceu o silêncio inquietante da falta de contato. Desgostoso e sem juízo, voltou ao pardieiro em busca do seu cenzinho de volta. Nem sinal do macumbeiro, uma mulata encorpada falou que a polícia deu uma batida e levou o sete um. Puto da vida Laurinho teve a certeza que não teria sua mulher amada em três dias, o vigarista não sairia da cana por alguns meses e seu suado dinheirinho não veria nunca mais.




segunda-feira, 24 de maio de 2010

Lei da selva.




Mosquito vivia atormentado, todo mundo gastava em cima por não ter ainda seu próprio rebento. Em dezessete anos de vida testemunhou uma leva de remelentos chorando fome pela favela e nenhum era dele. Queria seu filhote também, crescer no conceito da rapaziada jogando ronda com seu pivete no colo. Pena que Danuza tão franzina não tinha cara nem corpo de mãe, quatorze anos que pareciam ser dez. Como seria amamentar uma criança com aqueles seios pequeninos?
As más línguas atentavam dizendo que ela estava no ponto. Se ele não fizesse o serviço ia perder pra outro. Tinha medo da língua do povo, reagia cabisbaixo, pensando em Danuza passando roupa no apartamento chic da Atlântida, o filho surfista da patroa roçando quando ia pegar a prancha, paranóico imaginou o filhote nascendo branquinho, as gargalhadas de dentes podres, dedos apontando seus chifre pela ladeira.
Resolveu não cair nessa, faria logo uma escadinha para mostrar ser sangue bom.
Danuza não gostou do namorado tarado, azucrinando seu juízo para cabular aula e ficar de indecência no sofá.
-sai de cima, tenho prova!
Mosquito não se inibia.
-porra nenhuma!
Não entendia que tanto Danuza ia pra escola, já conseguira o uniforme do estado, já andava no ônibus sem pagar, pra que perder tempo.
-sai pra lá desgraçado!
O estardalhaço chamou a atenção da fofoqueira que espiou na janela e fez Mosquito sair sem jeito do barraco.
Frustrado foi fumar maconha com os outros vadios no campinho. Entre uma apertada e outra percebeu Lucinha cheia de maldade tomando banho de caixa dagua no terraço próximo. Molhada, os seios avantajados transparentes no vestido molhado, atraia olhares do grupo, mas esnobava dando atenção apenas para o namorado da prima. O calor forte foi à deixa para Mosquito se refrescar com a parenta.
Dois meses depois Mosquito ia ser pai. Alegre, viril tomou um porre de vinho ordinário e ressaqueado lembrou que tinha que desenrolar esse pepino com a namorada. Pensava nos bibelôs da estante atirados na cabeça, quando Danuza reagiu friamente ao comunicado.
-ta tudo terminado!
Disse indiferente, enquanto terminava o namoro de três anos. Sem lagrimas pegou as apostilas e foi pra aula. No trajeto comprou uma garrafa de agua gelada e respirou aliviada antes de subir o coletivo. Tomou o anticoncepcional e refletiu “quando acabar os estudos arrumo um macho de verdade”.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Os VIPs


Ataíde foi contemplado com um convite para assistir de camarote um tributo a Renato Russo. Roberto, influente amigo que lhe arrumou a credencial, pediu apenas para pegar leve na cana, pois a birita era zero oitocentos. Chegando na fundição teve a dimensão do quanto à parada era chic, assistiu privilegiado, nomes do rock nacional cantar sucessos da legião. Com lagrimas nos olhos e elevada quantidade etílica no sangue tentou dar um abraço em Dinho que depois da participação no palco adentrou o reservado, o musico deu um olé no desconhecido carinhoso, frustrado Ataíde seguiu vendo o resto do show. Fim das apresentações o lugar restrito entupiu de gente famosa. Atores, músicos e formadores de opinião se acotovelavam no espaço que começou a ficar pequeno. Ataíde resolveu não assediar mais ninguém, mas alcoolizado e movido por certa antipatia pelo futebol paulista resolveu fazer graça com um indivíduo vestido com uma camisa do são Paulo.
-tira essa porra, você ta no rio!
O cidadão não levou na esportiva a abordagem e caiu dentro de Ataíde que não espera nervosa reação. Estancou uma porrada feia na área VIP. A surpresa veio por conta dos músicos do capital que vieram em defesa do roadie são Paulino. Do meio da multidão surgiu Dinho (dessa vez como adversário), deu um golpe desajeitado e recebeu um boxe de Roberto que sem sucesso tentava tirar Ataíde da confusão. A segurança chegou favorecendo o lado famoso da história e com truculência deram um ataque soviético em Ataíde que foi parar atrás das cortinas, sua salvação, pois conseguiu se camuflar da briga.
Fora da festa, camisa rasgada, gemendo de dor no ombro, Ataíde contabilizava os prejuízos da aventura, Roberto achava graça do soco que dera no rosto famoso e ambos concordavam com um fato culminante, não é todo dia que futebol e musica dão uma boa mistura.

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terça-feira, 11 de maio de 2010

Bola de cristal


Acho que quando a natureza resolve te zoar não tem jeito. Os primeiros foram assim sem sentir, fiozinhos rebeldes abandonando a casa pelo travesseiro, outros tímidos insistiam em permanecer no sabonete, aí veio à debandada. Cada dia mais desertores fugindo pelo ralo acolhedor. Daí foi testa crescendo. O barbeiro é sempre o primeiro a dar o bizu, e o consumo de produtos diversos atrás do milagre, até simpatia ta valendo. Afirmam que é hereditário, e eu tive o azar de ter homem careca cercado para os dois lados da minha árvore genealógica. Veio o papo do remédio que evitava a queda, verdade ou não o certo é que essa pílula deixa a cabeça de baixo podemos dizer assim preguiçosa. O homem vive seu momento crítico de calvície dos vinte aos trinta, é a pior época para colocar em xeque sua virilidade. O grande lance é aderir ao desmatamento, tem seu charme, ta cafona cabelão, virou coisa do passado. Não sei se é dos carecas de que elas gostam mais, mas resolvi deixar partir, me encarrego pessoalmente de chacinar os heróis da resistência com máquina dois. Tem gente no estágio da gilete, cabeça lisinha, sem spray de tinta preta, peruca ou aplique. O retrato velho guarda o ninho de passarinho de outrora, e quando você vê se acha com tanto pelo. Seja econômico no xampu, seja rico. Pouca telha, grita o moleque pela janela, mas quando os alienígenas invadirem o planeta com suas cabeças acentuadas e nenhum resquício capilar os carecas vão definitivamente ser a ultima moda.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

O bagulho é doido.


Valdo andava conversando com espírito, cabeça em pandarecos. Não tinha grana, nem era capaz de lembrar ultima vez de carteira cheia. Nem sempre foi assim, tinha estagio, faculdade completa, família bonita colorida em porta retrato da sala.
A vida estava ingrata por esses dias, de quem seria a culpa?
Não via televisão, não ouvia música, moedas de troca. Seu ritmo agora era o barulho frenético dos carros no asfalto, buzinas nervosas, gritaria e sirene de patrulha. Às vezes pintava em casa, a mãe esgotada de delegacia e IML. Viver não era isso, às vezes a cura é o atalho para o inferno.
Valdo já foi gente, fez catecismo, canudo de formatura, nem tinha tanto tempo, não lembrava quando. Neurônio queimava todo dia, demente rindo do nada na calçada, chorando choro sem lagrimas, seco, secura, o tempo de uma puxada. Maltrapilho assustando transeunte no ponto do ônibus pedindo dois reais. Na fissura roubaria um banco, mas patético só roubava mãe, si próprio, vendendo por nada a roupa do corpo sebosa de alguns dias.
Nunca teve briga ferindo o histórico escolar, agora saia no braço por um cigarro, coragem ilusória, apanhando sem sentir, desacordava estirado na calçada.
A vida era o hoje, o ontem já tinha passado um tempão, sem memória e sem futuro. A onda era o que importava, minutos de êxtase, um universo mágico, longe dessa porra toda, que valia qualquer preço, deixando a realidade como detalhe no trajeto.
O pai desesperado internou, foram madrugadas infindáveis suando frio, maldizendo os parentes. Melhorou com o tratamento, dias ensolarados novamente, possibilidade de alta a vista. Quase gente de novo aproveita o descuido da segurança e pulou o muro da clinica na intenção de surpreender seu povo no domingo das mães, depois do susto veio à aposta de melhora, palavra de um novo homem. As semanas mostravam proximidade de verdade, só que um momento de frustração trouxe a recaída, aí foi cachimbo no bolso, frases a esmo. Voltou pra rua, mentira mal contada, tapa na cara de polícia, mendigo de barba feita. Longe de casa, perto do fim, engrossando estatística, ilusão perdida mesclada na cabeça fraca, pois o momento de ser forte pode ser aquele que está mais frágil.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Comeno poeira


Maria é nome de tarde salgada no mar de meaípe
Noite no sereno da vontade, pisada que tira unha, bejim sem fim
Papel com contato escapando do bolso furado
Vontade de sumir lagrima nos zoio
Depois sorriso, o acaso pintou com as cores da minha alegria
A realidade veio viciada em perfume na camisa
Enamorado da estrada para sorrir de novo
O sacrifício detalhe do romance, despedida olhos marejados
Sofrimento esquecido no frio da barriga de cada encontro
Virei mineiro, bebi cachaça cara e cerveja barata
Aprendi que montanha que não esconde mar traz vento frio que aproxima
Durou o tempo de ser bom, esnobei a eternidade, vampirizei madrugada xeretando sorte de Maria
O destino foi casamento estranho, bolo cafona e dia feliz
Deu vontade de ser novela e raptar Maria mais eu
Desatino puro, não se estraga sonho com susto
Apesar de desconfiar que o impossível vira possível se pagar o preço da atitude
Restou foto encardida na gaveta do pra sempre
Mas também abelha cínica azucrinando o tédio de Maria

quarta-feira, 21 de abril de 2010

É dia de feira.


Morrendo de vontade de comer uma tapioca despenquei um sábado de tarde de Niterói para São Cristóvão na direção da feira de tradições nordestinas. O lugar é bem legal, dois palcos enormes tocam principalmente forro, milhares de barracas vendem do artesanato a carne de sol. Comi uma tapioca de charque com queijo coalho que não foi à altura das muitas que me deliciei na ladeira da Sé em Olinda, mas serviu para matar a saudade daquela atmosfera agreste. Quando retornei para casa, olhando de longe o pavilhão lembrei-me da gafe que cometi alguns meses atrás no mesmo lugar, é que na ocasião tinha buscado no aeroporto duas amigas pernambucanas e passando no viaduto próximo da feira anunciei o lugar como feira dos “paraíbas”. Sob protestos tratei de corrigir o furo, o local não é um privilégio dos paraibanos concentrados no seu pequeno estado na imensidão do nordeste, e a palavra Paraíba já se tornou um apelido pejorativo de estremo mau gosto para o rotular os nordestinos. Deixando de lado a mancada, não deixei de matutar um devaneio, porque não inventam uma feira de tradições “sudestinas”?
O sudeste tem nos seus quatro estados uma variada cultura e culinária, seria interessante encontrar no mais remoto sertão um local onde se pudesse devorar uma feijoada, ouvir um bom samba e tomar café com pão de queijo. A nordestina daqui virou um famoso ponto turístico depois do incentivo do governo e passou a reunir além dos saudosos nordestinos gente de todo o Brasil. Então deixo minha idéia para os governantes do nordeste, apenas espero que se um dia uma coisa doida dessa acontecer ninguém venha cometer a gafe de chamá-la de feira dos “cariocas”.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

O craque.


Ronaldinho era uma unanimidade no Barcelona com suas arrancadas sensacionais, falando em bola, ninguém tinha outro assunto. Na roda de passarinheiros Cebolão debochava do talento do fenômeno.
-craque fui eu!
Já tinha falado isso de Romário, Guarrincha e Pelé, obvio que ninguém dava ouvidos para um freqüentador assíduo do manicômio da cidade, muitas vezes por cultivar o péssimo vicio de pular muro da casa de vizinhos, fazer necessidades no quintal e limpar com a roupa do varal.
Cebolão tinha cinquenta e cinco anos de maluquice, insistia que podia ter sido ídolo no esporte, mas não passava de um biruta libertino que desafiava o pudor das famílias andando na rua trajando uma samba canção frouxa. Vez por outra era caçado pela multidão ensandecida, munida de paus e pedras por motivo de alguma obscenidade. Um construtor de burradas como diria o pai português pouco antes de abandonar o filho único, ainda adolescente a sorte de dona Esmeraldina, o ser da natureza capaz de suportar um rebento com nível elevado de problemas. As internações constantes e medicação controlada faziam parte da rotina, vivia para os passarinhos e mentiras absurdas que criava, a molecada se divertia com os palavrões descarados, os senhores de idade suportavam pelo amor do doido pelos curiós. De engaiolados ele entendia, conhecia todos os macetes na hora da troca, de vender, madrugava na porta dos aposentados para as transações.
Certo dia por motivos de saúde, dona Esmeraldina teve que contar com os serviços duvidosos do filho para ir ao banco em busca da sua aposentadoria. O obrigou a colocar a dentadura que incomodava, camisa social e pegar leve no palavreado para ficar bem apresentável.
Virou Seu Sergio, suas lorotas seduziram a simpatia de Dulcinha, tímida solteirona que conheceu na fila do estabelecimento. Em uma semana estava apaixonada pelo Antonio Fagundes da alameda. Passeavam de braços dados, comiam pipoca no shopping, Cebolão irreconhecível soltou seus passarinhos, se adaptou aos banhos diários e dizia coisas bonitas ao pé do ouvido. Falava-se em casamento, todo mundo assistia perplexo o desfecho do romance.
No fim de semana do noivado, Sergio resolveu deixar de lado os remédios, sentia que estava estabilizado emocionalmente para tanto. Na noite de sábado foi estranho seu tom de voz elevado depois do cálice de vinho, estava nervoso, trincando os dentes. No dia seguinte a ausência de juízo o fez praticar o antigo vicio e largou um barro no quintal arborizado da casa da amada. Depois do almoço de domingo, toda a família da noiva presenciou em estado de choque o lesado usar o vestido novo de Dulcinha como papel higiênico. Fim dos planos de casório, fim da liberdade. Passando nova temporada no hospício, aposentou a dentadura no copo dagua, e se tornou novamente Cebolão, o Rei do futebol.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Um minuto molhado de silêncio.


Alguém me empresta um submarino, uma arca de Noé moderna, para salvar vida de carioca, mas também de gaúcho, nordestino e paulistano. O rio é um pouco de tudo, a chuva é caprichosa desce estrondosa, derrubando barraco, derrubando sonhos, desaparecendo com pessoas. Escrevo isso ouvindo desesperado do quarto o massacre da água, com a certeza a manhã seguinte será molhada de tristeza. Gente inocente engolida pela fúria da natureza. Todo mundo cansa de ouvir dizer que o ser humano não é tão inocente porque desafia o meio ambiente, constroem casa na encosta. Se existe inconsequência, o capitalismo tenta comprar segurança, algumas vezes gasta reservas com ignorância porque de repente chega o mar de lama, engole rico, engole pobre, fecha caminho, modifica a geografia que pode ser bela e pode ser fera. O Haiti é quase aqui, a gente descobre besta que ninguém é hercúleo com a natureza, nenhum lugar no mundo esta preparado para dias debaixo d’água, de terra vibrando, placas tectônicas, é tanta coisa que o bicho homem às vezes nem têm chance de saber do que esta morrendo. O fim do mundo é todo dia, os chefes de segurança pedem calma, massacrados, quem pediria desespero? O desespero já é efeito do momento, o silêncio é o que sobra para o óbito, a dor resta para quem fica. Uma melancolia retida no peito por se descobrir tão pequeno, volúvel brinquedo da tempestade.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Bebendo coragem


A birita é o elemento encorajador do bicho homem. Basta à cana fazer efeito para o medroso ficar valente. Todo cachaceiro de poucos recursos sabe que a noitada deve ser planejada para não sair tão cara e estuda a possibilidade de começar os trabalhos naquele boteco barato próximo da boate. O lugar em questão era o kabaret kalesa, reunia os mauricinhos no coração dos inferninhos da praça Mauá, com direito a strip tease e etc. Pela localização não era difícil encontrar a birosca para fazer a cabeça, nesse caso tinha uma do lado da casa, bebemos o suficiente para entrar no brilho, mas como o excesso é fundamental resolvemos levar um pouco do bar para dentro do recinto, o escolhido para empreitada foi Guto, pois estava em fase avançada da cachaça, enchemos duas garrafas pequenas de água mineral com rum e ele as colocou presa nas bainhas enormes da sua calça, ficou engraçado, mas não tanto perceptível causando apenas uma leve dificuldade para andar, a fila da boate terminava na grande escadaria onde dois enormes leões de chácara revistavam os baladeiros. Guto mesmo bêbado sentiu um frio na barriga, mas devido às presenças femininas ocultou com um sorriso tímido para não desfazer ali sua fama de maluco. Subiu a escadaria o mais devagar possível para as garrafas não saltarem da calça, foi revistado na cintura por um negão de dois metros e quando já estava de cara para vitória sentiu o toque no ombro.
-senhor, que volume é esse na parte de baixo na sua calça?
Perguntou o outro segurança encurralando sua entrada. Desesperado e precisando pensar rápido usou a única alternativa que veio a cabeça para evitar o vexame de ser banido do lugar sobe os olhares de todo o público.
-e que eu tenho perna mecânica!
Mandou na lata do sujeito, com uma cara de pau que nem ele sabia que possuía.
-desculpe senhor, pode entrar por favor!!
Solicito, o brutamontes ajudou nosso lesado bêbado a se locomover com o seu barzinho de bolso sob os olhares abismados do nosso povo. Mal entrou na casa, o milagre trouxe de volta a agilidade da nossa fera que transformou seu volume em diversas cuba libres. Acho que nunca antes vi alguém jogar tão baixo em prol da bebida, com certeza essa aventura politicamente incorreta não aconteceria sem a ajuda etílica, mas no fim das contas teve um sabor gostoso em burlar o sistema capitalista explorador dos boêmios tesos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Um lero com Deus


Era uma tarde de sábado como outra qualquer, Barrigudinho tinha como rotina curtir o silêncio do quarto queimando um depois do almoço. Parecia um daqueles cafés de Amsterdã que via na televisão. No décimo segundo andar, o vento encanado dissipava o cheiro sem despertar a atenção de curiosos, uma liberdade gozada na selva de pedra, dentro do seu templo com o seu cigarrinho de artista. O efeito, unido ao relaxamento do ambiente trazia para o doido as maiores viagens, magia capaz de transporta-lo para o coração da natureza, se via entre montanhas, submerso na água gelada de uma cachoeira de Sana, um momento só dele. Amava sexo, dinheiro, mas aquele estado de êxtase vinha em primeiro lugar, essa preferência inclusive podia ser até o motivo de estar sempre em falta dessas outras coisas, pois a aparência não ajudava, seus dreads nunca viam água, clássico desempregado sem pretensão de integrar o mercado de trabalho, um sonhador de havaianas nos pés e poucas ideias devido a tanta cremação diária de neurônios. Mas tudo bem, a onda substituía prazeres menores. De repente uma voz grave invadiu sua harmonia.
-barrigudinhoooooo!
Um eco assustador pronunciava seu apelido. Acreditando ser apenas paranoia, virou de costas para janela e deu uma leve puxada no bagulho para espantar os fantasmas.
-barrigudinhooooo!
Persistiu o grito, o suficiente para despertar o maltrapilho da sua preguiça.
-Deus?
Alucinado Barrigudinho olhou para o pedaço de céu nos fundos do prédio na esperança de encontrar o divino. Na cobertura vizinha três conhecidos rolavam no chão rindo do diálogo do lesado com o espírito santo que eles que nada tinham de santo começaram.

terça-feira, 16 de março de 2010

Sofrimento fiel


Pica-pau era um lorde das ruas do bairro. Proprietário de um burro sem rabo, trabalhando e fazendo dele seu lar móvel, vagando pela cidade, seguido pela sua cachorrada. Mais de dez vira-latas completavam sua corte, de todos os tamanhos, cores e humores, uma malta barulhenta enlouquecendo os arrogantes que mudavam de calçada enojados com tanta balburdia evitando topar com o sem teto. Pica-pau não se importava, não era mesmo dado a banho e coisas de higiene, seu único prazer era uma caninha no final das atividades. Era companhia divertida, sempre postado na calçada da padaria de Seu Jorge onde filava cerveja dos solitários com seus causos em que jurava ter sido rico, dono de puteiro, alimentando o boato de vir fugido de um lugar distante depois de matar um sujeito. Até aonde era verdade os relatos da figura pitoresca ninguém podia saber, mas o apelido ganhou por adorar imitar o personagem famoso do desenho animado com seu gritinho de he he he. Uma manha chuvosa de terça despertou estranho, recusou bebida, rejeitou o pingado que o padeiro oferecia no começo do dia. Estava cabisbaixo, sem força não saiu em busca de trabalho, o resto da semana seu estado foi se agravando até o perceberem desacordado. Na padaria fizeram inúmeras tentativas de conseguir uma ambulância para recolhê-lo, sem êxito improvisaram o pobre no carro do dono e levaram para assistência. Internado em estado grave faleceu em poucos dias, dando fim a uma história envolta de mistérios.
A cidade perdia um personagem curioso, oriundo da miséria porem carregado de brilho próprio. Partia na sua liberdade de levar a vida sem vintém, maltrapilho folclórico que literalmente não tinha onde cair morto. O dono da padaria patrocinou do próprio bolso o ultimo desejo do moribundo de não ser enterrado como indigente.
Pica-pau teve uma despedida sentida, sofrida por muitos, um velório populoso, mas nada se comparou a dor da família canina. Um sofrimento fiel, uivando chorosa a passagem do pai, protesto inútil deixando evidente a lacuna da ausência. Era a demonstração da natureza ensinando que a falta nem sempre vem do bolso do soberbo que se julga importante para sociedade, mas pode vir do mendigo que não tem medo de desperdiçar amor, única coisa de valor que pode ter.

terça-feira, 9 de março de 2010

Um gole antes de partir


Na década de noventa, qualquer fim de semana era motivo de viajem para o interior do estado. Forma deliciosa de reunir mulheres, amigos e historias impagáveis. Mão de faca, figura querida pelo seu jeito aloprado de protagonizar com naturalidade coisas inusitadas, se orgulhava em ser um ás do volante quando alcoolizado, tinha dado batidinha quando sóbrio, uma morsa simples, por motivo de afobação, de pileque exibia sua destreza sem nunca ter sofrido avaria. Devido a isso não deu ouvidos para o conselho dos amigos de irem de táxi para festa agropecuária na outra cidade.

Chegando intacto na festa, creditou a segurança do trajeto aos goles de vodka que tomou pelo caminho, radiante foi a caça da mulherada. Lá pela madrugada Mão de faca ainda não tinha sido feliz na sua busca, até então só tinha beijado latinha de cerveja e um pouco alterado se divertia atirando palitos de fósforo acesos nas escovas progressivas das mocinhas que o rejeitavam. Rafael veio em nome do grupo comunicar que estavam planejando terminar a noite na boate que ficava no mesmo quarteirão, apesar do povo decidir ir a pé, a excêntrica figura resolveu ir motorizado. Quando retirava o possante do estacionamento percebeu os músicos da festa precisando de carona, por uma dessas ideias estapafúrdias que só surgem na cabeça de biriteiro Mão de faca ofereceu seus serviços de motorista e apesar de receosos a banda aceitou o convite. Mudando seu caminho, partiu com seu palio lotado em uma trip de sessenta quilômetros. Na metade do trajeto o povo desesperado com a velocidade fez nosso amigo parar o carro no posto de gasolina de beira de estrada, assim o solitário aventureiro resolveu voltar para casa na ideia de ocupar uma das poucas camas do recinto antes da galera. Ébrio, vagando por uma estrada rural deu uma leve piscada de olho e encontrou pela frente a cerca de arame farpado, grande estrondo, mas se recompôs e continuou seu caminho. Desabou no sofá da sala mesmo, sono pesado, nem viu o resto do povo retornar da gandaia.
Cabeça zunindo no dia seguinte foi acordado por Rafael onze da manhã.
-o que é aquilo no seu carro?
Todos ao redor, examinavam sua carcaça de biriteiro para ver se estava inteiro.
-esbarrei em um cerca e dei um arranhão!
Já pensava em continuar seu sono quando sentiu que o buraco era mais embaixo. Levantou e foi conferir sua obra, a lateral do veículo estava acabada assim como sua habilidade de motorista bêbado.
Mão de faca curtiu tímido o restinho de exposição, doeu no bolso constatar que o cachaceiro no volante só ganha mesmo é sono e coragem, mas consequentemente perde todo seu reflexo.




terça-feira, 2 de março de 2010

A muié do lobisomem.


No alto da colina vivia Bernardo o lobisomem, proprietário de um terreno que reunia duas dúzias de casebres e sua bucólica residência com natureza por todo lado. Uma linda pedreira onde a tímida favela até então tinha dono, comparada com e explosão de favelas dos morros cariocas. Barraco lá tinha apenas o velho como proprietário, temido com suas histórias horripilantes, causava medo e cobrava o aluguel de porta em porta. O índice de inadimplência era pequeno, pois dizia à lenda que o despejado não abandonava apenas o lar e sim desaparecia para sempre no bucho do velho lobo. Comentavam que muitos tiveram esse triste fim, mas como pobre tem por consequência ser corajoso vez por outra aparecia um desgraçado que não podia comparecer com o aluguel e vivia o temor de enfrentar a fera, caso de Olívio, apaixonado pelos prazeres da cachaça, enfrentava seu medo com a coragem etílica e já enrolava alguns meses, o comentário era que o idoso salivava imaginando os ossinhos de pouca carne do biriteiro. Olívio gritava pelas biroscas da vida que não temia bicho nenhum e que na noite de lua cheia a fera iria parar de uivar na ponta da sua peixeira, como a valentia de um ébrio nunca é a mesma de um sóbrio, em noites enluaradas sem birita tremia de medo debaixo do encardido cobertor. A esposa Edna, nordestina destemida não temia a besta, sua vida tinha muitas assombrações para se preocupar, se o marido fosse devorado oitenta por cento desses conflitos iam parar no estomago do peludo, mas tinha consciência que indo para sarjeta não ia conseguir lugar decente como aquele para um pobre morar, sem medo de trabalho resolveu enfrentar o monstro oferecendo seus serviços de domestica em troca da divida. Tamanha atitude tocou o à fera que com noventa e poucos anos não parecia virar nem um cãozinho lazarento. Se sentido amparado pela primeira vez desde que a falecida o deixou há quase quarenta anos, Bernardo fez da valente Paraíba sua governanta, mas para língua do povo a mulher do lobisomem. Edna adquiriu respeito em toda região, causando tanto medo quanto. Terror era limpar o casarão que muito tempo acumulava todo tipo de sujeira, depois veio à autonomia de enfrentar os inquilinos que sentiram na pela a verdadeira assombração, impiedosa expulsou o marido bebum na base da porrada para dar exemplo, vendo a surra o povo disse que o bucho do bicho seria melhor fim. O lobo domesticado morreu sorrindo junto com suas temidas histórias, sem herdeiros incontestavelmente seus espólios passaram para a Edna que dignamente abandonou de vez a pobreza sendo a senhora do morro. Arrependimento não tinha nenhum, pois era mais feliz sendo viúva do lobisomem que mulher do cachaceiro.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Frevo, suor e lágrimas


O Brasil não acontece antes do carnaval, época de esquecer problemas, conhecer gente nova, enfiar o pe na jaca com essa gente nova. Olinda foi meu destino, blocos famosos, cores e fantasias. Fiz parte de um grupo de dez figuras com um intuito de aprontar muito. A malta carioca com sede de beijar na boca se misturou com os cafuçus na primeira noite ainda escassa de turistas. No primeiro instante um freio na nossa euforia, Patrick o mais jovem do grupo entrou com o pescoço na direção de um tapa de um cabra retado, ninguém foi capaz de anotar a placa da jamanta, mas com lagrimas nos olhos nosso menino foi consolado por uma gatinha disposta a dar carinho para um rosto triste. Fomos obrigados a mudar uma musica local que dizia que o carnaval começa no galo da madrugada para o carnaval começa quando Patrick leva porrada. Tudo bem quando termina bem, depois foi só alegria, na mesma noite Ricardo nosso bem vestido integrante trajando uma camisa de microfibra e seu jeito galante estreou nosso ninho na companhia de uma paulista cor de jambo de corpo bem feito, mas como diriam os pernambucanos não tinha lá um rosto muito bem organizado. No dia seguinte os trabalhos começaram cedo e Julio, com sua aparência de mocinho de novela das oito lançou na galera duas simpáticas britânicas que desde então fizeram parte do nosso bando, as inglesas despertaram amor, ódio e uma delas contagiou alguns integrantes com uma micose nojenta que tinha no braço, nada que uma pouco de Hipoglós não resolvesse. Nossa casa estava longe de seguir regras básicas de higiene, era um monte de homens dormindo em qualquer canto, tomando qualquer banho e fazendo necessidades em uma privada quase sempre entupida. Nosso despertador era o sol quente batendo no telhado sem laje e empurrava o povo pra folia cedo, na chuva as goteiras substituíam o chuveiro por causa da potencia.
Viramos possível alimento de tubarão em Boa viajem, em Porto de galinhas pisamos em ouriços para economizar jangada. Detalhes sem importância no caminho da felicidade. Musicalmente é a época do ano perfeita para poluir o cérebro com uma porcaria que não sai nunca da sua mente, nesse caso foi o rebolation, mas felizmente era substituído algumas vezes pelo tradicional frevo não menos repetitivo porem agradável.
Logo nos primeiros dias fui mordido pelo pernilongo da paixão e engatei um tórrido romance, minha neguinha vivia enclausurada na rua mais movimentada da cidade, para tudo se da um jeito e descobri uma maneira de chegar rápido na casa da minha amada, aguardava passar um dos milhares bonecos gigantes e me posicionava bem atrás dele que ia distribuindo cascudo na grande multidão com seu enorme punho, funcionou o plano, mas deixo a dica que é melhor ficar longe dessas feras. Com toda a vitalidade dos vinte poucos anos, a rapaziada também não ficava para traz no quesito amor, amavam muito, amavam varias, amavam todas, como melhor exemplo meu amigo Felipe que protagonizou um encontro curioso na nossa porta, a ex veio de surpresa e o pegou no pulo com a atual e a confusão só não termina em briga porque uma terceira namorada apareceu para separar e sair com ele de mãos dadas. Era a magia da festa pagã que fez com que o eloqüente Daninho vestido apenas com uma cueca do bob esponja segurando no peito o porta retrato roubado da risonha dona que nos alugou a casa, atraiu o amor de uma musa da beleza vitoriana, que em outros tempos seria com certeza uma duquesa, mas nos dias atuais com diriam as línguas ferinas do nosso povo, parecia um dragão de komodo. Renatinho com seu jeito arisco foi considerado um jumper aparecendo como um saci nos momentos menos esperados e curtindo de leve seu namorico com a carioca de sorriso suave. Raul era o nosso lobo solitário, desaparecia nas ladeiras como um ligeirinho de desenho animado colecionando amores e fama. Rafael era uma espécie de vampiro de estimação, não suportava a praia e nem era fã de tanta badalação, mas seu charme calado atraia a mulherada mesmo nos momentos de estomago embrulhado. Dieguinho com sua cara de menino e fantasia de anjo aloprava recebendo beijos e provocando sustos dando rajadas de liquido suspeito com sua pistola dagua que tinha tudo menos água. Nossa alimentação variava entre tapioca e acarajé, e surgiu na casa um brigadeiro de orégano que deixou a galera um pouco confusa. Ninguém deixou de experimentar uma tradicional bebida chamada pau do índio que sem sombra de duvida seria capaz de abastecer um veiculo. Já sou bastante viajado se tratando desse feriado, mas reconheço sem motivo de remorso, foi meu carnaval mais completo, todos os detalhes são felizes elementos desse sucesso e ainda deixa muita historia para ser contada. A tristeza ficou para hora de abandonar a bagunça e começar a contar os centavos para começar tudo de novo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O inferno de estimação.





Miro gordo se impressionava com o sabor suave da cerveja gelada tão condenada nos últimos anos. Antes rei do carnaval, agora um simples plebeu impressionado com menores prazeres. O seu reinado fora abandonado muito tempo atrás quando o doutor lhe apresentou o resultado do exame que condenava veementemente sua obesidade mórbida. No começo, frustrado, abandonou o titulo monárquico que lhe acompanhou por pelo menos oito carnavais. Além da fama deixou também de lado o maior dos seus biscates, que lhe gerava comerciais e apresentações em todo o ano porque vivia no país do carnaval.
Magoado com o destino, jurou que a folia do começo do ano nunca mais teria sua presença. Os amigos de antes deram espaço para a devoção e abraçou de vez a fé da mãe freqüentadora dos cultos. Tentava convencer aos outros e a si mesmo que para estar vivo teria que condenar todo seu passado de esbórnia. O Bonachão, incapaz de passar na roleta do ônibus, virou um flácido e melancólico novo magro. Escondido debaixo de um terno surrado sofria com o calor dos trópicos nas lindas manhãs ensolaradas de domingo.
Com a tristeza estampada nas olheiras, Miro magro, agora invisível caia por terra vivendo a sombra do dilema cruel que lhe colocara o doutor. Sua melancolia era toda porque se descobrindo magro, se descobriu outro Miro. Um Miro sem graça e sem sal. Não era rei no carnaval nem em outra época do ano qualquer. Participou de inúmeras palestras em que lhe diziam inúmeros benefícios que a falta de peso lhe traria, inclusive uma aparência elegante que agradaria o publico feminino que quando gordo só tinha transito como amigo.
Miro magro sobrevivia tropeçando pela vida, tentando afogar a saudade da época de folia. O carnaval de desbunde, indecência e alegria. Perdido na multidão, deixando de lado a pobreza, o mau humor e as constantes noites de solidão. Nos seus trinta e quatro anos de vida, Miro gordo só sabia ser gordo, quando se descobriu magro dentro do espelho se esqueceu da vida. Ficou magro para viver e acabou vivendo menos por ser magro. Lutava para acreditar que solução não estava na bíblia, nos irmãos que lhe davam ternos rotos e tapinhas nas costas de parabéns se dizendo orgulhosos.
Parabéns de que?
Orgulhosos como?
Como se pode querer bem a àquele que começa a deixar de se gostar?
A vida só começa quando começam os sonhos, e Miro gordo perdeu seus sonhos junto com seu peso. Tentou substituir com novos, mas descobriu perplexo que não lhe restava nenhum. Só possuía sonhos de gordo. Sonhos de farturas e abusos. Bebendo toda cerveja e comendo toda fritura que lhe apetecia. Admirador das carícias emprestadas e desprovidas de segundas intenções que as mulatas lhe dispensavam no carnaval. O suor brilhante, os flashes das fotos, os pequeninos fantasiados que os pais traziam sorridentes para tirar retratos na sua companhia. O gordo aparecia, e amava sem sentir sua gordura, o carnaval sorria para sua gordura, as pessoas o amavam. Perdendo o peso e o titulo monárquico, Miro magro, abatido e sisudo não existia para ninguém. Suplicava um cantinho no paraíso, agora bem mais leve, e jurava tentar esquecer o inferno, o pecado do carnaval.
Mas que pecado afinal?
Um mundo de gente esquecendo os problemas e vivendo de amor. Uma chuva de confetes e um turbilhão de sons diferentes de uma só vez castigando os tímpanos e anestesiando as tristezas. Miro gordo fazia parte disso. Miro magro foi incapaz de perceber, preocupado com cirurgias e dietas forçadas.
A lata de cerveja gelada descendo suave pela garganta o trazia de volta ao carnaval. Ao seu inferno de estimação, nunca esquecido apesar de tantos sermões. Não estava pronto para se despedir. Miro magro sem jeito voltava para seu universo, descobrindo embasbacado que gordo ou magro ali era seu lugar. Abriu mão do passaporte para o paraíso prometido, voltando para gandaia. Miro magro, gordo, rei momo ou plebeu no meio do povão, era o Miro que nunca feliz novamente. O carnaval do gordo, magro, preto, branco e mulato. Carnaval do Brasil e do mundo. O brilho que não se apaga, condenado pelo longo feriado, pelos desgastes, amado pela liberdade, alegria e vida. No meio dos índios, pierrôs e colombinas. O povo abria os braços e recebia de volta o rei momo magro, o Miro do carnaval.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Cuide bem do seu mascote




Boca de bueiro era proprietário de uma bela casa de aves na alameda. Lugar encantador tinha ração, peixe ornamental, hamster, tudo para fazer a alegria da criançada. O dono vivia para as mulheres, drogas e bebidas, um pandego no meio da natureza engaiolada. O pai aposentado de muitas posses bancava as extravagâncias para evitar o ócio do vagabundo que aparentava um futuro negro. Era uma besteira atrás de outro, sem pudor promovia festinhas dentro do estabelecimento com amigos e putas sob olhares perplexos de clientes. Acidentes faziam parte da rotina, periquito que fugia, coelho assassinado, sobrava sempre para mercadoria, viva ou não. Tinha um boato que boca vendia bagulho escondido na ração, mas nunca foi comprovado. O absurdo maior ocorreu em uma festinha num sábado de manha, um calor de rachar a cuca a freguesia era atendida entre copos de cerveja que boca revezava com um casal de amigos, horas depois o estoque da birita chegou ao fim e os embriagados resolveram improvisar diante da clientela chocada, sobrou para o líquido de dentro do aquário do beta. Em pequenos recipientes os solitários peixinhos viviam seus últimos momentos, mesmo com fama brigão que luta contra o próprio reflexo no espelho não intimidaram os doidos. De uma só golada a água descia com peixe e tudo. Um beta mais bonitinho que o outro, lutando goela abaixo antes do último suspiro. O novo drink não deu onda, mas causou uma dor de cabeça danada. Denunciados os bêbados quase foram linchados pela crueldade, a sociedade protetora dos animais fechou o local do crime e boca de bueiro ganhou férias eternas para alegria dos bichinhos de estimação.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Enfim carnaval


Nos anos sessenta, o carnaval no rio vivia uma época romântica, blocos animados atraiam uma multidão alegre, os bailes varavam noites de paquera num clima de harmonia. Por vezes surgia pancadaria, mas sem tanta violência logo terminava em abraço e cerveja. Vicente era apaixonado por carnaval, com seu jeito irreverente formulava adoráveis fantasias, gaiato por natureza não perdia a oportunidade de aprontar no feriado. Comprou uma fazenda preta e convenceu seu amigo alfaiate a transformar em duas batas mórbidas, uma pra ele e outra para o próprio timidamente cúmplice das suas peripécias. Até então fantasia de morte não era algo incomum, já dividia um grande espaço com os pierrôs e colombinas, o diferencial era Vicente que sempre arrumava uma maneira de aprontar. Para não desapontar seu povo, comprou um pinico novinho, como aqueles que viviam debaixo da cama de nove entre dez pessoas da época, encheu o recipiente com guaraná e para finalizar colocou um imenso pedaço de paio cozido horas antes no feijão da sua casa,ficou idêntico a necessidades fisiológicas. Saíram pela noite de folia causando repugnância por onde passavam, Vicente oferecia seu pinico para cada transeunte enojado pelo caminho. Pararam no bar da moda para curar na cerveja o calor da fantasia, quando um negro alto com cara de poucos amigos reparou na sacanagem.
-que nojooooooo!!!!!
Escarrou dentro do pinico demonstrando pouca tolerância com a brincadeira. Diante da real possibilidade de briga anunciada Vicente célere retirou o cuspe o quanto pode para logo dar um gole no guaraná e uma dentada no paio. Nesse exato momento o negão foi tomado por um súbito enjoo que o fez colocar para fora todo o campari que tinha bebido, dando assim um fim a porradaria que estava se formando. O pinico ficou celebre, seu Manuel do bar vizinho, trocou o utensílio por uma caixa de cerveja depois de constatar o aumento do movimento por causa do incidente no rival, o engradado terminou na mesma noite consumido por Vicente, alfaiate e o negão que a essa altura queria mais era colocar pra dentro o álcool que tinha perdido, afinal era carnaval.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Uma noite quase romântica


Bernardo trabalhou durante toda semana a idéia de rolar uma coisa mais forte. Tinham quase dois meses de namorico e nada. Apesar da vontade de abrir a guarda, Sônia tinha receio em agir por instinto, a dificuldade só aumentava a empolgação do galã que jogando pesado conseguiu uma mesa em um restaurante fino. Na manha que antecedeu o encontro mandou flores. Na noite era só cortesia, abriu porta do carro, pediu vinho caro, seu perfume másculo envolvia o ambiente. Encantada resolveu não resistir e aceitou terminar o jantar na luxuosa suíte do palace.
Namoro quente, coração acelerado e uma forte dor de barriga chegando com tudo sem ser convidada. A incontrolável chuva negra não permitiu que a pálida donzela paralisasse o ato, empesteou o ambiente. Por razoes obvias Bernardo não passou ileso, mas diplomático não perdeu a compostura, levou a constrangida namorada para a ducha. Sem clima acharam por bem terminar a noite ali. No retorno para casa, caricias, compreensão, Sônia pensou na ironia do destino, o acidente fez surgir à certeza de estar acompanhada de um grande caráter.
O gentleman a deixou na porta do prédio depois de um demorado beijo de despedida.
-cagonaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!!!!!!!!!!!
Berrou Bernardo quando arrancou com o carro.
Rubra de vergonha diante do porteiro ela teve uma certeza, seu príncipe tinha novamente virado um sapo.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Você escolheu errado seu super herói.
















Muitas crianças sonham em ser super heróis. Nada mais simpático já que a maioria deles faz o bem, possuem super poderes e salvam o mundo sempre tão precisado de ajuda. Eu mesmo já me imaginei subindo pelas paredes, meu amigo Rafael só tirava fotos imitando o hulk, apesar da reportagem recente do menino que pulou pela janela do prédio achando que podia voar. Na maioria das vezes esse devaneio infantil passa sem maiores desastres, mas também rola aqueles que não abandonam esse desejo nem quando adulto, ou será que eles são realmente nossos salvadores?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Grande família


Presenciei quando garoto o surgimento da família mais completa que poderia existir, a família monstro. O apelido não tinha a ver com a família Adams da televisão, e sim com a diversidade dos integrantes. O patriarca, cachaceiro inveterado vivia beijando calçada. A esposa uma crente fervorosa a serviço do senhor. A única filha era uma Raimunda que apesar de feia de cara fazia a alegria da rapaziada que recebia em fila quando estava sozinha. O caçula coroinha da igreja vivia dos seus biscates ajudando as carolas. Tinha ainda um cdf afundado nos livros, um ladrão de varal responsável pelos pequenos furtos da região, e o mais curioso de todos, o irmão mais velho. O primogênito sustentou por um tempo o mistério de sair a noite e aparecer no dia seguinte. Valério não tinha menor pinta de vampiro com seu jeito afeminado, logo descobriram que fazia ponto no centro da cidade travestido. Até gente esquisita tem limite, rolou pancadaria. Uma casa com tantos conflitos rolava porrada todo dia, mas essa briga em especial resultou em pé na bunda do filho gay.
Os anos passaram e a casa continuava sendo atração de escândalos. O coroinha largou a igreja depois que descobriu sabor no vinho do padre, seguindo assim os passos do pai. O ladrão participou de um roubo grande e acabou em cana. A desinibida pegou barriga e terminou em filho. O sonho da mãe de ter um filho doutor se perdeu quando o estudioso Maurício trocou a faculdade de medicina pelo balcão da padaria para ajudar nas despesas.
De bíblia em punho e carapinha branca a matriarca não tinha forças para pedir saúde para o velho agonizando sua cirrose no hospital publico.
O milagre veio de táxi, certa tarde uma vistosa morena de cabelos cacheados entrou porta adentro. Maquiada de forma tão impecável que dona Eulália não foi capaz de reconhecer Valério expulso há quinze anos atrás. Ele não estava ali para expor suas mágoas, vinha de longe, tinha encantado a Europa com seu jeito diferente de ser mulher, colecionou amantes e euros. O sangue falou alto e veio ajudar seu povo. O pinguço teve um enterro digno sobre lagrimas. O encarcerado conseguiu liberdade pelas mãos de um bom advogado. A ovelha negra surgiu em forma de esperança, um arrimo perfeito no meio de tanta diferença. Se seu dinheiro não foi suficiente para trazer saúde, trouxe algo improvável pro seio da família monstro novamente, união.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Festa no interior


Uma das poucas certezas que tenho na vida é que tudo é roubável, basta criatividade e qualquer coisa vira um alvo. Itaocara, uma pequena cidade no interior do Rio ainda gozava de pouca violência, suas ocorrências não passavam de roubo de galinha. O perigo estava na época da quermesse, que atraia publico de fora pela quantidade de mulheres bonitas.
Marquinho resolveu prestigiar o evento, a faculdade de medicina o consumia tanto que poucas eram as oportunidades de um fim de semana livre dos plantões e livros. Sua antiga turma não permitia caretice e logo no primeiro dia cedeu aos caprichos da vodka. Nitroglicerina pura, o Caxias virou a atração da festa, fazendo o espetáculo das transformistas do palanque ter menor importância. Fim da noite se viu acompanhado e sem carona para voltar. No desespero de andar alguns quilômetros, sua amada demonstrou desânimo com o convite para dormirem juntos, quando o doutor percebeu em uma carroça amarrada em uma árvore perto do rio a oportunidade de fechar com chave de ouro. Sem dificuldade convenceu a companheira do passeio romântico. Sem ninguém por perto conseguiu botar o troço para andar com duas pancadas na mula. Prometeu noivado tendo o céu estrelado como testemunha, e varou a madrugada no balanço carente de amortecedor do novo transporte. Todo mundo acreditava que Marquinho iria longe na vida, o que ninguém imaginava é que ele faria isso indo desembestado entre Itaocara e Aperibé em uma charrete roubada. O dono do veículo dormia na beira do rio aquecido pela garrafa de itaucarina que tinha mamado horas antes, sem imaginar o que acontecia com o patrimônio. A essa altura nosso médico já estava apavorado tentando fazer o bicho parar, a mula não tinha abs, quando pegou a reta da estrada tomou fôlego e dizem os mentirosos podia ser vista a cento e vinte por hora. Nem precisava tanto para o ébrio e sua noiva não terem condição de pular da desenfreada geringonça, nervoso improvisou uma vareta no traseiro da bicha, o resultado foi catastrófico, a suada mula iniciou uma seqüência de gases para logo em seguida sua manifestação ficar sólida, a bosta parecia não ter fim, ia para todo lado, mole e fedida transformando o passeio romântico em uma viajem ao inferno, quando dois vaqueiros conseguiram conter os fugitivos tinha fezes para todo lado. Os pombinhos precisaram de um bom banho. A simpatia acolhedora da região fez o roubo ser levado na brincadeira, a rajada de merda foi suficiente para Marquinho nunca mais roubar nada. O noivado acabou no dia seguinte quando a ficha caiu e retornou para Niterói. A mula valorizou bastante no mercado por causa do sistema de alarme contra roubo mais eficaz da região.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sorria!!!






















É legal perder tempo olhando o passado estampado. Uma pesquisa revelou que mais da metade das pessoas se acha estranha quando se vê em uma foto. A câmera é um objeto temperamental, pode maltratar muito se não vai com a cara do feioso. Sempre pode rolar a desculpa que não é fotogênico e a alternativa de sair de fininho. Nos tempos sem digital o estrago era pior, não tinha aquele recurso de ver e quem sabe apagar, o sujeito gastava dinheiro para revelar e vinha o desastre. Ficava até barato quando a imagem vinha apenas com os olhos vermelhos de maconheiro. Nos dias de hoje recursos não faltam, mas tem sempre uma boa maneira de deixar sua foto estranha. Quem é que nunca tirou foto abraçado com amigos olhando para baixo onde a maquina no automático faz aquela boba roda feliz de sorrisos, ou aquela que um monte de babaca fica com o olhar perdido no céu fazendo ar de pensativo. Ta afim de sacanear? Tem aqui algumas maneiras irreverentes e sensuais de fazer pose.