terça-feira, 1 de março de 2011

A lira do delírio


Karina seguiu intrépida a multidão contente. O centro curtia a euforia da festa pagã. Gelo de escama, cerveja quente e até um chapéu panamá roubado na muvuca. Assim saiu o escravos, único bloco capaz de fazer o executivo trocar o terno pela roupa de piranha e cair na gandaia pela rio branco tomando chuva de ar condicionado. O alívio estava contido na caipirinha, tanta gente, tantas possibilidades descendo com Karina. O tumulto carrega seu corpo, mas ela não pertence, não repara na marchinha, seu silêncio é impenetrável, sua fantasia de odalisca é obscena, atrai olhares porém as lagrimas nos seus olhos espantam na mesma velocidade.
Não poderia existir vilã pior, uma entidade mais ferina que bate bola ensandecido. O carnaval fechou as portas para Karina que indiferente sumiu na praça quinze a bordo da velha barca deslizando pela Bahia de Guanabara. Não deixou saudade, nem mesmo curiosidade. Karina triste cometeu um erro fatal. E não foi culpa da fantasia, nem da ousadia, vacilou feio por não saber em que parte do caminho esqueceu sua alegria.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O pior amigo do homem


O pequinês morde???

Quanto tempo não adentra uma casa de subúrbio e se depara com essa questão?
A televisão vive lamentando a extinção dos orangotangos, mas pouca gente se preocupou com a extinção da antipática raça de cãezinhos nervosos. Latido estridente, vendido a preço de banana, não existia casa que na possuía seu pequinês no quintal. Virou mania, quase uma praga temperamental que saboreava vez por outra a batata da perna de um visitante. Apesar do tamanho os dentinhos vampirescos que insistiam fora da boca era a forma de impor respeito.
Não sei qual mistura genética originou esse bibelô vivo das copas residenciais, sei que não deu certo. O infeliz convivia com uma doença assustadora que fazia cair um olho depois de certa idade. Então o exótico pulguento que já não gozava de aparência vistosa se transformava em um pedaço de capeta que assustava até revolver. Resumindo, não sei por qual motivo aconteceu o fim da espécie, só sei que o pequinês sumiu do mapa. O que restou para os saudosos foi buscar consolo nas réplicas de cerâmica de gosto duvidoso, vendidas nas lojas de um e noventa e nove.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Mea culpa



Quando cursei o primeiro ano do segundo grau conheci Horácio. Não era o dinossauro verdinho dos gibis de Maurício de Souza, sim uma menina da classe que possuía cabeça oval e olhar carente. No meu imaginário nocivo de moleque, criei o personagem vivo. Apesar do ódio da vítima ganhei a aceitação da turma que sentava na parte de traz. Virei um ídolo pop escolar, fumava cigarro nos corredores, passava as aulas falando gracinha. Na hora da prova o zero foi quem mais sorriu para mim. Fim das contas no meio do ano à garota deixou o colégio para fugir do apelido e eu fui transferido para um mais fraco sem possibilidade de passar de ano.
Parando para pensar, meu ponto alto daquele ano letivo foi um apelido cruel que me fez popular, vejo quanto fui idiota e percebo que toda essa conscientização de hoje sobre o bullying é fundamental. O universo escolar pode ser agressivo, lembra um reino animal onde a fera acha melhor ferir que ser ferida, e no fim todo mundo acaba ferido. No momento da vida que esta moldando seu caráter pode ser difícil perceber o peso de uma brincadeira, e tem gente que cresce sem noção disso. Desde cedo é necessário cuidado no humor, pois a piada pode ser dona de todas as gargalhadas do momento, mas pode também causar uma ferida profunda no ego de alguém.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Muito Feliz kkk


Glorinha acendeu a luz do quarto, sem vontade de levantar. Atordoada, com ressaca de um amor perdido, paixão ilusória, que anunciou para os sete ventos, idealizou, sonhou e escreveu. Glorinha sempre foi sorriso aberto de retrato, glamour modesto das redes sociais, tentativa desesperada de ser notada no mundinho ilusório, na revista caras dos pobres. O álbum do Orkut não exibe fotos do seu desespero, onde o gelo do ar condicionado não se compara com o polo norte da sua alma. Dominada pelo nada, abre o note book e examina sua criatura, fantasma risonho que se alimenta de analise e frontal. Exclui rapidamente o álbum cafona onde divulgou sua aposta fracassada, o príncipe encantou seu universo por dois meses o sapo vai durar a eternidade. Jura pra si mesmo que só precisa do ódio e do tempo, mas no mundo virtual, onde tem uma reputação a zelar coloca na frase da chamada em letras garrafais, Muiiiiiiiiiiito Feliiiiiiiiiiiz kkkk.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A parada!!!!!!!!!


Dia de praia, sol derretendo a ideia, um mundo de gente confraternizando com o astro rei a sorte de ser carioca. O único motivo de azar no paraíso era a nervosa ressaca. Poucos se atreviam a entrar na água, quem ousava virava motivo de chacota devido a algumas cambalhotas aquáticas que divertia a galera na areia. Quando o caixote era feminino normalmente o biquíni ia parar na cabeça deixando a mostra partes íntimas, mas quando o assunto era macho, a diversão ficava por conta da dificuldade do desgraçado em sair da água.
Ronald não era sujeito de ficar tostando na areia por medo da natureza. Medalha de lata em natação não ia deixar de dar suas braçadas, apertou o cordão da sunga e resolveu encarar. Furou a primeira onda, a segunda, na terceira sem fôlego foi engolido pela serie. Só alegria para os espectadores, uma soca atrás da outra, até o mar resolver cuspir na areia.
-sai da água! Gritava os amigos vendo o intrépido insistindo em explorar a espuma, correndo o risco de ser sugado novamente pelo oceano furioso.
-perdi a parada! Gritava tentando tapar o rosto.
-quer morrer! Veio de encontro o salva vidas tentando tira-lo e quase se afogou de susto.
O desespero de Ronald em procurar o que perdeu era maior que um prejuízo material, o que sumia nas profundezas de iemanjá era nada menos que seu segredo, até então guardado a sete chaves no meio da rapaziada, mais valioso que um cordão ou dinheiro, deixava na água nada menos que seu olho de vidro, cuja ausência lhe deixou por um bom tempo usando tapa olho e ganhou o apelido de pirata do asfalto.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sonho de consumo.


Frigideira odiava o emprego na loja de sapatos, diariamente subindo e descendo do estoque, aguentando mau humor. O sacrifício trouxe o orgulho de ser o primeiro motorizado da rapaziada. Apresentar o carango para rapaziada ia lhe transformar em um rei, já que em tempos de vacas magras, neguinho não tinha o dinheiro nem da bicicleta.
O dito era um Fiat 147, amarelo caganeira. Nos planos da praia de domingo esnobaria Samuca, rival que lhe batizou com o apelido exótico que causava risos no público feminino.
Célere estacionou o frigideira móvel na praça lotada. A galera bateu palma eufórica. Seu ponto alto.
-que isso! Despeitado em achar um defeito, Samuca cutucou uma falha na pintura e surgiu a primeira manchete.
Para constrangimento geral, o antigo dono omitiu um fato importante. O veículo tinha sido protagonista de uma capotagem cinematográfica, o lanterneiro metido a artista utilizou muita massa e jornal para substituir grande parte da lataria. Frigideira dirigia sob palavras.
A diversão ficou por conta de descascar a pintura em busca de informação. Desesperado, restou a Frigideira tentar evitar que desmanchassem seu sonho de consumo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Promessa de mão de vaca.




Ano novo, vida nova. Zilda decidiu, deixaria de ser sovina colocaria o melhor vestido e ofertaria rosas vermelhas para iemanjá pedindo marido.


O fim de ano no manicômio trazia esperança nos enfeites de natal e pacotes de cigarro de presente. Fartura, não faltava cigarro na boca de maluco. Só que Clóvis queria mais que ficar encolhido pelos cantos tomando remédio e soltando fumaça, queria a liberdade.


Na floricultura Zilda teve uma recaída, se revoltou com o preço do buque e improvisou furtando as flores amarelas de um arranjo na portaria do seu prédio.


A noite da virada foi a data escolhida por Clóvis para fuga. Meia dúzia de funcionários lamentando plantão no feriado, sossega leão na idéia dos doidos. Nove da noite, pacientes recolhidos no pavilhão, ninguém deu falta de Clóvis na contagem. Pulou o muro e deu seu grito de independência.


Em uma praia lotada por multidão alcoolizada, o fugitivo ria nervoso para todos os lados quando percebeu o olhar receptivo da solitária Zilda de volta do mar onde depositara sua medíocre oferenda. Sem se fazer de rogado o Don Juan do hospício iniciou um xaveco que começou numa conversa sem nexo e culminou num longo beijo quando deu meia-noite. Bela entrada de ano, show pirotécnico no ar, bandinha animando o começo da madrugada.
Ao clarear o dia, o casal namorava deitados na areia. Zilda agradecia o milagre naquele cenário romântico depois de décadas encalhada. Clóvis vibrava com o mundo de prazeres proibidos quando estragando a atmosfera do grande encontro o enfermeiro Genival surgiu na frente dos pombinhos. O paciente tentou escapar e foi travado pelo enfermeiro Abílio na retaguarda. Zilda perplexa assistiu os brutamontes colocar a camisa de força no amado. No triste caminho de volta ao apartamento, lamentou amargamente a economia nas rosas vermelhas de iemanjá.