quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A parada!!!!!!!!!


Dia de praia, sol derretendo a ideia, um mundo de gente confraternizando com o astro rei a sorte de ser carioca. O único motivo de azar no paraíso era a nervosa ressaca. Poucos se atreviam a entrar na água, quem ousava virava motivo de chacota devido a algumas cambalhotas aquáticas que divertia a galera na areia. Quando o caixote era feminino normalmente o biquíni ia parar na cabeça deixando a mostra partes íntimas, mas quando o assunto era macho, a diversão ficava por conta da dificuldade do desgraçado em sair da água.
Ronald não era sujeito de ficar tostando na areia por medo da natureza. Medalha de lata em natação não ia deixar de dar suas braçadas, apertou o cordão da sunga e resolveu encarar. Furou a primeira onda, a segunda, na terceira sem fôlego foi engolido pela serie. Só alegria para os espectadores, uma soca atrás da outra, até o mar resolver cuspir na areia.
-sai da água! Gritava os amigos vendo o intrépido insistindo em explorar a espuma, correndo o risco de ser sugado novamente pelo oceano furioso.
-perdi a parada! Gritava tentando tapar o rosto.
-quer morrer! Veio de encontro o salva vidas tentando tira-lo e quase se afogou de susto.
O desespero de Ronald em procurar o que perdeu era maior que um prejuízo material, o que sumia nas profundezas de iemanjá era nada menos que seu segredo, até então guardado a sete chaves no meio da rapaziada, mais valioso que um cordão ou dinheiro, deixava na água nada menos que seu olho de vidro, cuja ausência lhe deixou por um bom tempo usando tapa olho e ganhou o apelido de pirata do asfalto.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Sonho de consumo.


Frigideira odiava o emprego na loja de sapatos, diariamente subindo e descendo do estoque, aguentando mau humor. O sacrifício trouxe o orgulho de ser o primeiro motorizado da rapaziada. Apresentar o carango para rapaziada ia lhe transformar em um rei, já que em tempos de vacas magras, neguinho não tinha o dinheiro nem da bicicleta.
O dito era um Fiat 147, amarelo caganeira. Nos planos da praia de domingo esnobaria Samuca, rival que lhe batizou com o apelido exótico que causava risos no público feminino.
Célere estacionou o frigideira móvel na praça lotada. A galera bateu palma eufórica. Seu ponto alto.
-que isso! Despeitado em achar um defeito, Samuca cutucou uma falha na pintura e surgiu a primeira manchete.
Para constrangimento geral, o antigo dono omitiu um fato importante. O veículo tinha sido protagonista de uma capotagem cinematográfica, o lanterneiro metido a artista utilizou muita massa e jornal para substituir grande parte da lataria. Frigideira dirigia sob palavras.
A diversão ficou por conta de descascar a pintura em busca de informação. Desesperado, restou a Frigideira tentar evitar que desmanchassem seu sonho de consumo.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Promessa de mão de vaca.




Ano novo, vida nova. Zilda decidiu, deixaria de ser sovina colocaria o melhor vestido e ofertaria rosas vermelhas para iemanjá pedindo marido.


O fim de ano no manicômio trazia esperança nos enfeites de natal e pacotes de cigarro de presente. Fartura, não faltava cigarro na boca de maluco. Só que Clóvis queria mais que ficar encolhido pelos cantos tomando remédio e soltando fumaça, queria a liberdade.


Na floricultura Zilda teve uma recaída, se revoltou com o preço do buque e improvisou furtando as flores amarelas de um arranjo na portaria do seu prédio.


A noite da virada foi a data escolhida por Clóvis para fuga. Meia dúzia de funcionários lamentando plantão no feriado, sossega leão na idéia dos doidos. Nove da noite, pacientes recolhidos no pavilhão, ninguém deu falta de Clóvis na contagem. Pulou o muro e deu seu grito de independência.


Em uma praia lotada por multidão alcoolizada, o fugitivo ria nervoso para todos os lados quando percebeu o olhar receptivo da solitária Zilda de volta do mar onde depositara sua medíocre oferenda. Sem se fazer de rogado o Don Juan do hospício iniciou um xaveco que começou numa conversa sem nexo e culminou num longo beijo quando deu meia-noite. Bela entrada de ano, show pirotécnico no ar, bandinha animando o começo da madrugada.
Ao clarear o dia, o casal namorava deitados na areia. Zilda agradecia o milagre naquele cenário romântico depois de décadas encalhada. Clóvis vibrava com o mundo de prazeres proibidos quando estragando a atmosfera do grande encontro o enfermeiro Genival surgiu na frente dos pombinhos. O paciente tentou escapar e foi travado pelo enfermeiro Abílio na retaguarda. Zilda perplexa assistiu os brutamontes colocar a camisa de força no amado. No triste caminho de volta ao apartamento, lamentou amargamente a economia nas rosas vermelhas de iemanjá.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Passeio na praia


Viajo longe namorando o mar. Paquero as colegiais matando aula no calçadão, malicia, beleza suave. Percebo que alegria tem muitos donos, angustia um só motivo. Perto do mar não preciso ser nada, leve como o vento, presente e invisível como a maresia. O cheiro de sal, o agressivo toque da arrebentação, o óbito do sol no horizonte. Horas parecem minutos, onde não tenho cor e nem juízo. Fico um pouco ausente da realidade, do sofrimento na hora de sair da cama, da busca de um propósito, temendo os olhares, as questões. Ressaca da alma, sem forma e sem jeito apenas desespero.
Aguardando iluminar a orla, um sorriso me surpreende, traz uma alegria sem dor, uma certeza na vontade. Impossível não me envolver, era o momento, o desafio.
-como se chama? Perguntou a dona de olhos azuis que traziam pra noite o encanto do mar. Nesse momento poderia ter qualquer nome, ser qualquer coisa, tudo ou nada.
-meu nome é Vera! Respondi com a sinceridade da certidão de nascimento.
Sem uma palavra ele pegou minha mão, me senti pronta, protegida da matéria ao espírito, acolhida pela certeza. Deixei o medo no caminho e fomos de encontro às diferenças.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um dia de morto


Barulho seco de freio, som estrondoso de ferro com ferro. Nas ruas mal sinalizadas do bairro uma porradinha de carro fazia parte do cotidiano. Nesse caso um caminhão se beijou com um ônibus vazio que seguia para garagem. Para decepção do povo, não houve feridos, afinal de contas desastre é o teatro do pobre. Observando a frustração Vicente teve uma idéia mórbida, roubou um lençol do varal, espalhou ketchup pelo corpo, deitou no asfalto improvisando o defunto do acidente. Os amigos cúmplices achavam que o gaiato seria rapidamente desmascarado, mas o manequim de presunto estava tão convicto da sacanagem que permaneceu imóvel colocando em dúvida até os comparsas que encanaram que ele parara mesmo de respirar. Os transeuntes aglomeravam e um ou outro levantava o lençol orquestrando o coro de suspiros.
-tão jovem! Lamentou uma senhora gordinha, deixando escapar uma lagrima.
Já escurecia e nem a assistência nem a polícia chegavam. Só uma romaria de curiosos. A brincadeira ia tomando um tom caótico, um pastor inventou um sermão, uma mãe tapou o rosto da criança e um bêbado soltou um palavrão para em seguida ganhar uma tapa de um mulato forte, iniciando a pancadaria que faltava ao espetáculo. Vicente nem se movia, era tão mentiroso que perigava ele mesmo estar se acreditando morto. O acaso veio de jornal de baixo do braço, tímido seu Nestor adentrou o tumulto e perceber que o cadáver era o próprio filho. Era um homem simples, mas de bobo não tinha nada, percebendo que se tratava apenas de mais uma travessura de Vicente, soltou o sonoro assovio característico de quando queria colocar seu moleque na linha.
-fiuuuuuuuuuuu!!!!!! Foi o suficiente para o falecido pular e sair voando entre a multidão no caminho de casa. Um Deus nos acuda, gente correndo para todo lado, criança chorando e idoso passando mal, a polícia chegou dando tiro e a assistência acudindo. O dono do milagre foi pra casa jantar e colocar de castigo o maior artista que a cidade já conheceu.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Uma choldra ignóbil.





É época de sorriso roto em adesivo de carro. Não é necessário ser bonito, apenas a arte de rir sem vontade, a técnica de vender bondade com prazo de validade. Dias fatídicos que o horário nobre da televisão é gratuito, mas custa caro pra gente que troca à novela pela divina comédia humana. No picadeiro o mágico apresenta no presente a carta que vai tirar da manga no futuro. Política se alimenta do amanhã, principalmente por saber que memória é luxo de enciclopédia.
O monstro jurássico que promete acabar com a miséria é o alimento de campanha. Um jingle insuportável fica na cabeça depois de seguidas voltas do carro de som. O pedágio do traficante vale um tour pelo morro, conceito com a rapaziada, a ratazana foge assustada pelo esgoto a céu aberto que promete fechar, solta os fogos que se confundem com balas e banca o churrasco de gato. Depois contrata meia dúzia para balançar bandeira na rua, vestindo as cores da sua prepotência na camiseta apertada. Só alegria, beijo seco na criança remelenta, dentadura pro idoso e cachaça para o bebum. Na noite em casa pensa em números, toma sal de frutas pra curar a feijoada indigesta que foi obrigado a provar. No fim das contas vitória do ego, os espólios da batalha sobram para poucos, para muitos, chá de sumiço, esbarrão de segurança. A bondade vira arrogância, uma casa de praia no condomínio fechado. E um mais novo estranho familiar estréia trajando Armani e vomitando demagogia para platéia sonolenta em algum canal a cabo. Saboreando a herança dos devassos na capital que inventaram no coração do cerrado, longe da ralé, das enchentes esperando quatro aninhos pra sorrir de novo

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Troca ingrata


No começo dos anos oitenta, pouco se conhecia de recicláveis, não existia garrafa pet, latinha pouco popular (duras e sem valor de revenda), tudo funcionava na base do vidro, o famoso casco.
O casco era vedete na economia de secos e molhados, e de carona nessa febre surgiam no mercado informal alternativas de se lucrar com isso. Guardo na memória uma dessas aventuras que infernizava os lares suburbanos nos fins de semana, o famoso picolé ou pinto por garrafa.
Na carroceria de um velho caminhão, um gaiato de pouca credibilidade urrava no megafone “é picolé ou pinto por garrafa”, a polemica frase atiçava a molecada que assaltava o engradado no quintal de casa para trocar pelo interessante pintinho rosa, um milagre ordinário da ciência clandestina. O picolé derretia encalhado enquanto os pintinhos partiam sufocados para o novo lar. Alguns dias piando, cagando e gastando luz forte na gaiola improvisada perdia metade do charme rosa e se tornava um frango desbotado. Novo demais para ir pra panela, com tamanho suficiente para incomodar com sua catinga a pequena ave deixava o clima tenso. O ultimo suspiro de paciência se esgotava no dramático almoço de domingo ausente da coca litro que o português da padaria se recusava em vender sem trocar o casco. Era o momento de alguém partir e o penoso ia parar no abatedouro do bairro. Meses depois a epopéia terminava com o retorno do pintinho ao antigo lar, dessa vez por cima, cima da mesa. Assado, cozido ou ao molho pardo o indesejado hospede de antes virava novamente o protagonista do espetáculo.