quarta-feira, 19 de junho de 2013
Vinte centavos
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Na barca
três mulheres conversavam em pé
belas, exuberantes
Uma menina sentava próximo à janela de cabeça baixa
sem graça, sem sal
As três mulheres eram verdadeiras esculturas
saradas, chamavam atenção dos homens que olhavam e comentavam empolgados
A menina lia o pessoa
sem se preocupar com o sol na ideia
invisível no seu mudinho literário
As beldades falavam de academia
com voz grossa discutiam vitaminas e suplementos
A garota sorria sozinha, sonhava sem vergonha
nem aí para o redor, os olhares que não recebia
Quinze minutos de viagem até o centro
o suficiente para os caras enjoarem da beleza forçada das gostosas murmuravam ser artificial, repleta de trejeitos masculinos
lamentaram falta de sensualidade feminina perdida no culto ao corpo
voltaram ao papo do futebol
A menina fechou o livro, se abriu para vida
linda no seu sorriso que ainda saboreava à poesia
brilhava, bailava na multidão apressada
descobriu que o tempo pode vencer a juventude, à beleza
porem nunca a arte de saber ser bonita para si mesmo
segunda-feira, 16 de julho de 2012
Lugar de Bandido
Almiro nasceu com o bico doce de playboy. Infelizmente sua classe e sua cor não ajudavam nessa atitude.
Na infância foi adotado por um casal de idosos com filhos já criados, porem a diferença para os irmãos doutores era limitada pela porta da cozinha.
Estudar não era a sua, enrolou até o primário. Seu lance era levar na aparência seu sonho de bacana. Arrumou um trampo de mensageiro e entrou na musculação, ganhou corpo e mole das patricinhas.
Tinha carisma porem também possuía a mania feia de mexer no que era dos outros, uma menina esqueceu o celular no armário, resolveu não devolver. Achado não era roubado, o único detalhe é que a dona não deixou barato e foi na polícia dar queixa de furto.
Daí foi barraco, dedo na cara, processo e algumas cestas básicas. Vazou da malhação, cansou do emprego e andou uns tempos pela vadiagem.
Enquanto a família se dividia em cargos públicos optou novamente para o caminho do dinheiro fácil, conseguiu uma vaga em uma empresa de agiotagem no centro da cidade.
Logo se encontrou, ameaçar dar bordoada em aposentado era moleza. Sucedeu seu estrelato, financiou carro importado, cordão banhado a ouro e cara de mau.
Foi que certa manhã enquanto ameaçava com uma bofetada jogar longe a dentadura de um coroinha que negociava uma pendência de trezentos reais os homens bateram em cima e deram o flagrante. Sirene ligada, pulseira de aço e cana. O episódio da academia o tornara reincidente.
O universo marajá ruiu da noite para o dia em uma cadeia lotada de sonhos iguais aos dele. No dia da visita, diante da mãe de criação velhinha que se arrastando foi atender o seu apelo, com lagrimas nos olhos implorou.
-me tira daqui, isso é lugar de bandido!
segunda-feira, 9 de julho de 2012
Travessia suburbana
terça-feira, 10 de abril de 2012
Logo ali!

Começou assim, numa reunião de instantes, gente querida, de perto e distante. Pedro tinha uma década que não aparecia, vivia pelas nuvens, próximo dos astros. Já Tibério, há quatro anos vagava perdido nas estrelas, estrada confusa que se segue sem rumo, sem vontade de chegar. Antônio continuava pelo mesmo lugar, terra firme, talvez nem tanto. Aparentemente variando diante da enfermeira, porem radiante devido ao reencontro nessa sua jornada pelos noventa anos.
Cada qual da sua maneira, foi gente que viveu coisas semelhantes, amou e sofreu por dores do mundo. As lagrimas que abrilhantavam a conversa eram de alegria. Ninguém falava de idade, dor, apenas sossego por mamar com gosto nas tetas da vida.
Felizes, riam alto dos erros e acertos cometidos, e se gabavam dos feitos realizados. Nessa jornada de anos, galopava a certeza que cada hora virava segundos, piques de luz na memória, como sonhos que alguns viveram e outros sonharam, mas todos tiveram.
Depois da tarde curtindo os amigos, Antônio se despediu com um ate logo. Sentado na cadeira de balanço caiu no sono. E assim dormiu para eternidade. Como Pedro tinha feito uma década atrás, e Tibério há quatro anos. E nesse momento sagrado, foi o mundo dos vivos que virou saudade.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Especial

Abriram as cortinas!
Um filme passou na cabeça de Leonor, lembrou Luciana miudinha brincando de princesa. No seu mundinho encantado não cabia maldade, começava no era uma vez e terminava em felizes para sempre. Recordou a tempestade quando diagnosticaram trissomia no cromossomo vinte um. Um medo louco do desconhecido que durou ate colocar nos braços sua menina. Depois foi tocada pelo instinto maternal que transbordou amor e deu inicio a sua missão de fazer aquela coisinha miudinha virar gente. Não gente especial, gente que nem a gente.
Logo veio um oceano de coragem, valentia para enfrentar os estúpidos que olhavam sua criança de lado, que recusavam nas escolas alegando o distúrbio genético como desculpa. Daí virou fera, lutou pelos direitos em uma batalha que não se saberia dizer onde terminava a realidade e começava a fantasia. Nesse interim seguia Lulu, amante inveterada da vida, capaz de curtir os momentos simples que os pessimistas eram incapazes de perceber. Assim se formou bela, vaidosa e bailarina.
A plateia assistia eufórica a apresentação de todo grupo. Cada qual exibia sua graça para o espetáculo, porem ninguém brilhava mais, sorria mais, encantava mais. O carisma de Lulu era arrebatador, cativando àqueles que abriam à guarda para o seu jeito peculiar de se fazer notável.
Finalmente nos olhos marejados dos presentes conquistava sua vitória. Abria os braços agradecendo aplausos. No lugar de pena aparecia o amor de mãe coruja, o orgulho de pai babão e acima de tudo o talento que não escolhe cara, cor nem religião.
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Cafezinho

Arlindo era tarado por café, bebia para dormir, para acordar, antes e após as refeições, se sentia uma enorme máquina abastecida por esse combustível, infalível para seu humor funcionar direito. Quando seu celular tocou no meio do expediente estremeceu, era sua tia Laurinda uma mala que sempre que ligava mordia um troco.
-estou muito ocupado!
Foi curto e grosso.
-pois desocupe querido sobrinho, seu Pai acabou de falecer!
Mandou a bomba do outro lado.
O traste do Juvêncio afogava a vida na cachaça e nunca morreu de amores pelos familiares, enterrou a esposa e contribuía assiduamente para os cabelos grisalhos de Arlindo. Apesar dos pesares lhe colocou no mundo e sem mais delongas mandou-se para Arraial do Cabo. No caminho teve outra péssima constatação, era véspera de carnaval.
A estrada repleta a caminho do balneário fez a viagem que levava duas horas se transformou em oito deixando ele tão atordoado que adentrou o velório sem dar conta do caixão no centro da sala e foi parar direto na cafeteira. A família chocada o seguiu para protestar.
-seu insensível, nem foi capaz de olhar o velho!
Protestou a irmã com veemência.
Já recuperando as energias, Arlindo se virou para a roda de parentes e disparou.
-deixa terminar meu café, daqui a pouco vou ali e choro pra caralho!
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
O sonho acabou

Zé do pão despertava antes do galo. Virava a madrugada forneando, curtindo sua fama de melhor padeiro do bairro. De manha, trocava de turno com Juvenal, que além de colega de trabalho era seu afilhado recém-chegado da paraíba. Porem a dobradinha familiar no serviço não funcionava bem, o garoto não aprendia os macetes do forno e literalmente vivia queimando a rosca. O patrão dava chilique, mas mantinha o incompetente por causa do padrinho e suas horas extras.
Em casa quem mandava era Henriqueta, que vivia com a macaca e descontava as frustrações nos dois trabalhadores. Zé não dava importância ao mau humor da esposa, marido devotado nem ligava quando os amigos insinuavam que era piru caseiro, longe das bagunças e cachaça cultivando seu sonho de voltar para o nordeste, abrir padaria e virar emergente no lugar onde repousa seu coração.
Como fofoca pouca é bobagem logo pipocou na vizinhança o boato que Zé do pão era Zé do chifre, diziam que quando ele saia para batalha o afilhado o substituía no leito.
Verdade ou mentira o couro comeu numa tarde de domingo. Não se sabe quem contou muito menos quem folgou o certo era que pelos gritos os três se encontravam dentro do barraco. Era um barulho de coisa quebrando, palavrões cabeludos. A legião de fofoqueiros foi se formando para ver o desastre. Dez minutos se passaram e foge pela janela Juvenal, disparando morro abaixo. Os presentes não tiveram tempo de comentar o fato de o safado sair ileso quando o próprio Zé do pão aparece, cabeça sangrando da paulada, fita o povo assustado e desce na mesma carreira.
Vai para o quinto dos infernos veado velho!!!!!!!
Grita da porta Henriqueta, indignada depois de pegar na cama os dois padeiros de saliência.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Quinze anos

Fernanda acordou para seu dia cor-de-rosa. A mãe chorosa levou café na cama, o pai orgulhoso arrebentou as economias na festa de arromba. Parentes vinham de distintos lugares, todo bairro convidado e até mesmo uma reserva especial para possíveis penetras. Um momento único, quem chegasse assistiria seus quinze anos. Depois da longa missa que fez o estômago dos presentes urrarem de fome, o padre liberou o povo para o salão da igreja. Foi àquela caravana desenfreada adentrando com e sem convite e deu início o espetáculo. Crianças histéricas corriam por todos os lados, senhoras ofegantes roubavam os arranjos da mesa, garçons serviam variados canapês. No meio disso chega Agenor o namoradinho, levou meses economizando mesada e trouxe de presente um urso branco de pelúcia quase de tamanho natural, o pomposo presente fez o evento parar, e ele receber um forte abraço e a promessa da primeira dança.
Lá pelas onze, a festa caminhava em um clima de harmonia quando Marcílio furou a festa com sua corja de maus elementos, frustrado por não encontrar resistência resolveu ir além da simples penetrada.
-vou faturar a aniversariante! Comunicou para galera.
Entre risos e desconfianças sobre o sucesso da empreitada iniciou o flerte. Alto e bem-apessoado avistou a lebre e se fez notado pela presa, pouco depois já tinha toda a atenção da princesa. O até então príncipe, nerd de carteirinha não tinha como evitar a investida do sedutor, já que a estrela da noite não podia deixar de dar atenção aos seus súditos e meia-noite começou a valsa.
Atenções voltadas para o salão, à debutante iniciou com o pai como manda o figurino, depois foi o padrinho e quando Agenor se preparava para sua vez Fernanda tira Marcílio da multidão, espanto geral. Em dez minutos de dança estavam quase todos conquistados pela beleza do novo casal e como em um conto de fadas acontece o beijo. Nesse ínterim, aturdido com o acontecimento, restou ao príncipe traído o caminho de casa, trajeto que levou regado aos goles da garrafa de uísque que furtou da mesa do ex-sogro e abraçado ao enorme urso de pelúcia que pegou de volta.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Pobrezinha

Dona Lorena era a pior fofoqueira da rua. Incapaz de um sorriso sincero, tudo na sua vida era baseado no interesse que remetia o que podia ser melhor para si. Assim convivia com os vizinhos semeando discórdias, rainha das intrigas. Ninguém sabia sua idade, por baixo devia ter uns cinquenta anos de bairro, lugar que foi casada e hoje se encontrava viúva. O que se sabia era que desde sua existência ambiente nunca mais foi o mesmo.
O falecido, o querido Seu Rufino, era boa praça, uma gentileza com o próximo que ninguém entendia como vivia sobre o mesmo teto que tamanha surucucu. Quando partiu, cedo na casa dos sessenta, conspiraram que foi envenenado pela megera, um gozador disse que morreu para se livrar da danada, mas na verdade sofreu infarto do miocárdio. Passado o velório tinha quem apostasse que a viuvez traria um pouco de humildade naquela carranca, e foi nesse momento que a bruxa apareceu.
O rancor da solidão fez surgir uma fera perigosa capaz de expulsar o filho de casa e colocar vidro em bife para matar cachorro de vizinho. A peste era danada, quanto mais grisalha, mais maléfica. Uma nuvem negra que sobrevoava aquele sobrado que parecia um castelo de filme de terror.
Quando todos já imaginavam a desgramada como eterna, caiu doente. Ficou um trapo, caquética e desmemoriada. Uma figurinha tão frágil, que em nada recordava o tsunami de atrocidades. Sua família que essa altura já tinha ido cada qual para um lado providenciou uma ajudante para acompanhar seus últimos anos sem envolvimento afetivo. E assim, abandonada limitou seus dias em caminhadas pelas calçadas nas manhãs de sol. Irreconhecível, apoiada na enfermeira e sem qualquer sinal de sanidade mental, ria abobada para quem passava na alameda quando um garotinho que atravessava a rua cutucou a mãe.
-olha ali que vovó boazinha!
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Pedra na cabeça.

Eu sempre fui desses de amigo imaginário, tenho um que já existe maior tempão. Na verdade é mais velho que eu, acho que deve ter ficado de bobeira me esperando nascer para atazanar. Sendo assim, não é difícil prever que muitas vezes ele se torna um inimigo, figura pernóstica, na espreita para me sacanear, pois digo e afirmo toda vez que errei foi ele! Esse descontente que brinca com o meu juízo.
Esse sujeito safado, que veste minha roupa e se esconde bem na hora que a merda estoura. Assim vou sendo estranho, com essa coisa besta que só eu vejo, só eu entendo, tantas vezes perseguido e hoje em dia levo com afeto, um carinho de quem se rende. Não sou tão imbecil para chamá-lo de companheiro, quem sabe um pouco, incapaz de criar rótulos para esse espírito que nada tem de santo, pois nessa vida já tentei mandar, lutar, no entanto apenas obedeço, vendo o impossível antes da esquina do sucesso. E vou sofrendo, montado nessa mula desembestada, atravessando sinal fechado, falando mentira, queimando pedra e dando topada no destino. Alimento-me das calúnias para pedir, esmolar, roubar quem passa, debaixo da marquise, escravo da fissura que me bagunça, me marginaliza, me leva para o gueto. No espelho quebrado na sarjeta não reconheço essa figura nervosa, que vive babando seu destino e está sempre preparado para gozar o momento curto que em um piscar de olhos troca seu paraíso pelo inferno.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
A fila anda!!
José Pedro era um cara esquisito, vivia escravo do que iriam pensar dele, até que o amor traiçoeiro lhe pregou grande peça e se viu caído por Sofia, a loba do 1205.
Tudo começou no elevador, trocaram olhares de desejo, ela convidou para ajuda-la com as compras e solícito, foi parar na caverna do dragão de onde já saiu namorando.
O garoto com seus vinte tarados anos apreciou seus ares de homem da casa, era uma mulher bem-sucedida, morava sozinha na cobertura do prédio, defensora pública de foto no jornal e motorista na portaria. Apesar do glamour era feia de tirar dente de leite de criança, na idade não passava dos cinquenta, mas na feiura ganhava mais uns trinta anos de lambuja. Porem romântica e bem remunerada a coroa lhe dava de um tudo e lhe colocava no céu com seu fogo contido.
Como nem tudo na vida fica entre quatro paredes, o rapaz levou um banho de água fria quando soube que estava sendo conhecido na galera como Pedro da velha. Não bastando o vulgo desagradável ainda gemia de vergonha toda vez que desfilava de mãos dadas pelo condomínio (gesto exigido pela amada que pagava as contas).
Daí, na sua cabeça influenciável começou a questionar o namoro. Rodou a baiana e decidiu diminuir o ritmo da relação. Insultada com a atitude que lhe colocava no patamar de amante, Sofia colocou o moleque porta afora. Apesar do susto, Pedrinho saiu confiante, afinal de contas era jovem e bonito, sentia no íntimo que ela dançaria conforme sua música com o tempo. Para apimentar o drama o malandro passou uma semana febril na casa da avó. Até que seu peito transbordou de saudade e retornou.
Guardava no íntimo que quando ela o avistasse se atiraria aos seus pês pedindo para voltar. Só que o destino, brincalhão e zombeteiro aprontou uma das suas, com um banho de loja e ego inflado Sofia resolveu seguir o dito popular que a fila anda e apareceu no pedaço com seu novo gatão, mais novo, mais belo e proprietário de um carro zerinho que segundo as más-línguas era o presente que reservara para o primeiro mês de namoro com Pedro.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
O rei da noite
Ficou fosco o brilho da noite carioca! Não estou aqui para condenar a truculência que culminou no óbito, covardia desmedida, tiro nas costas, sensacionalismo que não merece gastar palavra, deixo isso para vender jornal e elucidar o caso. O bom mesmo é falar da euforia, vibração, elementos que nunca faltaram para Marcelo, um cara folclórico, conhecido, querido, principalmente por aqueles que sabiam se divertir, viver bem. Acordei com o susto da notícia, o sábado de dia azul ficou cinza, a morte chegou de maneira bruta, fez por um momento a vida parecer tão pouco. Porém foi um ledo engano, esse cara soube bem como levar a sua, saboreando cada minuto.
Nessa época em que sofremos uma epidemia de depressão, Bicudo doava alegria, agregava amizades, reunia gente, amava isso tudo. Era um bando social, comandado por um maestro amador que capitalizava carinho, calor humano. Sua morte bruta não apaga a graça da sua existência, essa eterna festa que fazia da vida. Muita gente se divertiu com essa figura que não discriminava classe, cor ou opção sexual. Gostava de gente e enquanto tiver uma alma viva curtindo uma night, um domingo de sol com praia lotada, vai existir Marcelo Bicudo na memória, deixando seu espirito eterno.
domingo, 3 de julho de 2011
Perfume de mulher

Peracio era uma raposa quase indefesa, deficiente visual transformava sua bengala em arma furiosa no delicado toque da gilete. O treco ficava áspero, onde pegava rancava pedaço, no botequim de seu Zeca tinha tamanha utilidade contra os gaiatos que se divertiam fazendo graça com aquele que carinhosamente chamavam de ceguinho. Era outra época, onde o negro era crioulo e o branco azedo, se passava um afeminado na rua era motivo de alegria, amor dispensado e recíproco enquanto no ar surgiam palavras de veado a corno e no fim das contas sobravam pedras pelos ares e sirene de polícia. No meio disso Peracio tomava sua cachacinha e bajulava uma conquista, feia de doer, mas exalava um cheiro forte de almíscar barato que seduzia o galante de olfato apurado. Para vagabundagem restava gastar piada e tentar fugir das bengaladas, mas nesse dia em especial o romântico resolveu ignorar o público e com a tenacidade de um lince tomou no ar a mão da pretendida. A gargalhada foi geral, mas nem aí, tocou com seus grossos lábios a mão da ébria senhora. O estranho foi, que de tão delicada parecia mão de criança, tanto pelo tamanho como pelo odor que não era tão agradável quanto o perfume que chamou atenção antes.
-meu amorzinho, por acaso, você saiu do banheiro? Perguntou encabulado com o contato.
-não, é que acabei de coçar uma ferida que estou na perna! Respondeu Sebinho, um pivete de uns nove anos que vivia rondando o bar em busca de trocados.
A birosca veio abaixo e sobrou bengalada para todo lado, a patrulhinha que rondava o bairro em busca de maconheiro fez a festa e levou cego, maluco, piranha e até criança, todo mundo parou no distrito que teve seu dia de manicômio. Nesse ínterim a bengala foi parar debaixo da geladeira do bar, e como felizmente não se tem crime sem arma nem defunto, o povo foi liberado de madrugada e a estrela da confusão retornou para as mãos de Peracio que fichado e feliz voltou para casa tateando a calçada esburacada.
segunda-feira, 20 de junho de 2011
O padrinho.
Divaldo Viana adentrou a comunidade semana antes da eleição e foi recebido com certa animosidade.-descarado, nessa não tem meu voto! Gritou Jurandir.
-mas o da sua mãe eu tenho! Devolveu célere o político.
-pior que a velha vota mesmo! Lamentou o filho abatido pelo cinismo.
O candidato prosseguiu gastando charme, uma criança remelenta no colo e um cortejo de pinguços. Pela frente um desafio, convencer Boca de burro, sujeito influente do pedaço a ser um cabo eleitoral.
-Tenho doze votos só no barraco, quero três vagas de cobrador para os meninos! Chantageou o nordestino.
-papel e caneta, já estão empregados! Divaldo escreveu do próprio punho um bilhete pessoal para o dono da Viação Andorinhas. ‘Caro amigo Virgílio, peço que aceite em sua empresa meus três afilhados, figuras da minha estima e confiança’.
Deixou a favela dominada depois de tamanha generosidade. O final de semana foi de goleada nas urnas, e na segunda, a família orgulhosa do deputado eleito foi na empresa de ônibus reclamar seus empregos. No endereço bateram demoradamente no imenso portão de ferro, enfim abriu uma janelinha.
-pois não! Atendeu um homem fardado aparentando ser o segurança.
-vinhemos entregar isso pro doto vigilo! Gaguejou Boca de burro.
O sujeito levou o papel aos olhos por alguns segundos.
-aqui não tem nenhum Virgílio meu senhor, e vão circulando que hoje não é dia de visita! Fechou a janelinha, deixando os desempregados pasmos diante da penitenciária do estado.
No fim resta a mesma história centenária, quando alguém insiste em um absurdo é chamado de louco, mas quando um louco convence muita gente passa a ser chamado de líder!
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Noites de São João

Enfim São João, o inverno chegando, noites aquecidas pelas fogueiras das festas temáticas. O clima caipira invade a cidade com seus trajes e mesas enormes de comidas típicas. Da escola até família todo mundo aprova as festinhas. Alegria no ar, estrelas artificiais se misturam no céu, os populares balões. Afinal de contas, quem foi o primeiro imbecil a colocar no espaço papel e fogo? Tem coisa mais besta?
Bonitinho a os olhos da ignorância adentra a natureza queimando matas, destruindo vida. Violência banida pelas autoridades que continua sendo praticada. Quando garoto tinha um festival bem pertinho da minha casa, depois da minha rotineira denúncia anônima ficava no terraço constatando com alegria que oitenta por cento dessas engenhocas não subiam nem três metros e acabavam por incendiar os chifres dos organizadores. E de carona vem à bomba, passando do estalinho é impressionante como esse treco fica agressivo ao tímpano, o gaiato solta e espera o estrondo, o desavisado leva o susto e fica surdo. Mas a pólvora também se vinga, lembro-me do garoto da escola que perdeu o tempo do pavio estourando a danada na mão esquerda, ficou na brincadeira o indicador, médio e anelar, e ganhou o apelido de Nicolas Hang loose. Porem desanuviando a acidez das minhas lembranças, o que resta é alegria, sair da aula para ensaiar quadrilha, bolo de aipim com coco, Alceu furando o vinil, correio do amor e um espirito festivo que contagia de quadriculado rico e pobre deixando tudo com um gostinho bom de roça.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Vai procurar a sua turma!!!!

terça-feira, 19 de abril de 2011
O último tubo.

Um belo domingo o veterano saboreava a memoria respirando a maresia que vinha da Bahia de Guanabara na praça do seu bairro quando teve uma grande surpresa. A estação de tratamento de esgoto se rompeu despejando seis milhões de litros de esgoto na sua direção. Estava no fim de uma partida de buraco, quando teve que relembrar os velhos tempos, improvisou um pedaço de madeira e voltou para casa surfando a enorme tsunami de merda. A coisa ficou preta literalmente, porem depois de alguns banhos seu Manel não deixou de sentir de volta a adrenalina de ter protagonizado seu último tubo.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Muito romântico
Se eu fosse presidente do Brasil mandava matar todos esses indivíduos que ficam vagando de bar em bar oferecendo aquela florzinha para o casal. Acho que é a típica situação em que todo mundo se fode, se você nega não é romântico, se compra é cafona e a coitada da mulher constrangida não sabe onde enfiar a flor nem a cara se for presenteada. O pior é que isso acontece no momento mais covarde possível, não dá tempo de correr, é dramático quando você percebe a presença do inimigo se aproximando e fazendo as primeiras vitimas, sempre em posição estratégica, de modo que ir ao banheiro parece fuga, plano obvio que acaba frustrado. Vendedor de flor de boteco é igual à abelha no caldo de cana, afasta um e surgem vários, por todos os lados, todas as cores, rosas, amarílis, antúrios. Um jardim de pernas movido pelo ódio que sua rejeição criou com uma missão bem mais pessoal, broxar de uma vez por todas seu encontro.
terça-feira, 1 de março de 2011
A lira do delírio

Não poderia existir vilã pior, uma entidade mais ferina que bate bola ensandecido. O carnaval fechou as portas para Karina que indiferente sumiu na praça quinze a bordo da velha barca deslizando pela Bahia de Guanabara. Não deixou saudade, nem mesmo curiosidade. Karina triste cometeu um erro fatal. E não foi culpa da fantasia, nem da ousadia, vacilou feio por não saber em que parte do caminho esqueceu sua alegria.




